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INGLÊS SOB MEDIDA

AULAS PARTICULARES

Bastardo

29.05.2019

 

Uma das pioneiras atitudes do que se autoproclama novo é demonizar tudo aquilo que considera velho. Assim é na política; assim é na arte.

 

Com o nosso movimento modernista não teria sido diferente.

 

Arauto do novo e do moderno, o modernismo se impôs tirando de jogada o que considerava pertinente ao passado.

 

E Henrique Maximiano Coelho Neto foi um dos alvos prediletos.

 

Outrora o autor mais lido da literatura brasileira, Coelho Neto seria escolhido como representante modelo de toda a quinquilharia literária a ser superada.

 

Ora, contudo, se moderno era ser exótico, iconoclasta e transgressor, o autor de Turbilhão reunia já todos esses requisitos, quer fosse com a variedade de bizarros pseudônimos com que difundia sua vasta obra – Tartarin, Caliban, Fur-Fur, Manés –, quer fosse com as contemporâneas narrativas, cujas descrições de bairros e classes sociais cariocas faziam jus aos mais modernos cronistas de então.

 

Talvez daí certa inveja modernista. E a necessidade de tirá-lo de cena.

 

 

Em Turbilhão, publicado em 1906, mil emoções similares às que ocorrem hoje nos bairros das grandes cidades perpassam: adolescente que por amor foge de casa; irmão que a busca freneticamente; família que recorre à macumba etc. E a trama se dá dentro do mais exuberante cenário urbano carioca:

 

Depois de haver percorrido lentamente a Rua do Ouvidor, parando diante das vitrinas a olhar as joias cintilantes, os bibelots graciosos, os manequins esbeltos, resolveu-se a tomar um tílburi e mandou tocar para Botafogo.

 

A irmã moça dera uma fugidinha com um ricaço e, ao final, empoderada, só e independente, era de se imaginar onde a beldade andava a montar casa:

 

No Largo da Lapa esteve para descer vendo uma fila de bondes engatados que seguiam para Botafogo. Sim, naquele bairro é que ela devia estar, num chalezinho risonho, entre flores. Aquela hora dormia ainda, decerto, sobre as sedas macias do leito infame com a cabeça nos braços do amante, nua e fatigada...

 

Por fim, a mãe descobre o chic paradeiro da filha bastarda:

 

Dona Júlia levantou a cabeça e, fitando os olhos no filho, que a afagava, perguntou:

–Onde está ela?

–Em Botafogo...

–Boa?

–Forte e bonita, como nunca!

 

Também bastardo para os modernistas, Coelho Neto – a despeito de flanar a cidade inteira – acabaria virando mais um bairro barra pesada da periferia carioca.

 

*Lucio Valentim é professor de Literaturas, doutor em Letras Vernáculas e pesquisador visitante no Programa Avançado de Cultura Contemporânea (PACC) da UFRJ

 

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