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AULAS PARTICULARES

Dos Arroios à Conde de Irajá

15.01.2019

 

A história de nosso pobre país funde-se com a da imigração.

 

E não falo aqui dos que vieram com terra prometida – tipos nipônicos e germânicos – mas, sobretudo, daqueles despossuídos, fugidos da fome, das guerras, e que vinham a nós em busca de algum trópico. Algum troco. Alguma paz.

 

Fundamentalmente ibéricos, chegavam – em sua maioria – à deriva, entregues à própria sorte. Contudo, na bagagem de vantagens traziam a parecença das línguas, quer fosse o catalão, o galego, o castelhano, ou mesmo o português.

 

Se de terras de Espanha vinham fugidos das sanguinárias falanges franquistas, de terras lusas chegavam acossados pela ditadura salazarista. Ou do que restara dela.

 

Foi assim que – dentre muitos – um humilde gajo, de nome Joaquim Lourenço, saído de uma pequena aldeia portuguesa, lá do Concelho de Paredes, decide emigrar para o Brasil, com destino ao Rio de Janeiro. A fim de se desemparedar.

 

Eis o mote de E só eram verdade os que partiram, romance de 1988, da escritora lisboeta Leonor Xavier.

 

Nascida na rua dos Arroios, na capital lusa, a escritora vivera no Rio de Janeiro, durante quase duas décadas, sempre retomando a diáspora, escrevendo recorrente e incansavelmente sobre o tema, conforme se pode ver nos variados títulos: Ponte-Aérea, O ano da travessia, Uma viagem das arábias. Ou em Casas contadas, onde nos conta suas moradas pelo extenso universo tropical.

 

Neste romance, há o poético capítulo intitulado Conde de Irajá – rua de Botafogo que iniciava na Voluntários da Pátria e terminava no Beco da Formiga –, onde a portuguesa relembra ter vivido seus melhores – e bucólicos – dias tupiniquins. E que assim tem início:

 

Rua Conde de Irajá, 413, Rio de Janeiro. Agora sim, vejo o Corcovado de braços abertos sobre mim. O apartamento que se tornou minha casa fica no último andar do prédio, tenho um jardim de cobertura com uma palmeira e canteiros de plantas e flores (...) O chão empedrado é de calçada portuguesa branca (...) Fico nua na água do chuveirão quando o Rio enlouquece de calor (...)

 

Importância máxima tivera o bairro para Leonor Xavier que, no rastro da memória desse calor tropicano, o texto de E só eram verdade os que partiram seria, décadas mais tarde, republicado em Portugal, com o instigante título Botafogo:

 

Estamos junto à esquina com a rua Voluntários da Pátria, a principal de Botafogo, rua de duas pistas e trânsito intenso de carros e ónibus a todas as horas, desce até as pistas de acesso ao Aterro do Flamengo, a debruar a Baía de Guanabara.

 

Singela – e definitiva – homenagem de Leonor ao bairro que um dia lhe acolhera os sonhos. E o destino.

 

 

 

 

*Lucio Valentim é professor de Literaturas, doutor em Letras Vernáculas e pesquisador visitante no Programa Avançado de Cultura Contemporânea (PACC) da UFRJ

 

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