© 2017 CURTA BOTAFOGO | Direitos reservados | Reprodução autorizada desde que citada a fonte. 

  • Facebook Social Icon

POSTS RECENTES: 

22.10.2019

Please reload

INGLÊS SOB MEDIDA

AULAS PARTICULARES

A mais antiga sinagoga do Rio fica em Botafogo

 

 

A União Israelita de Ajuda aos Necessitados Shel Guemilut Hassadim, mais antiga sinagoga do Rio de Janeiro, foi fundada por judeus marroquinos presumidamente em 1840, numa época em que cultos não católicos eram proibidos no Brasil. Após funcionar em vários endereços do Centro, a Shel Guemilut Hassadim mudou-se, em 1950, para sede própria na rua Rodrigo de Brito 37.

 

Se hoje alguns endereços de Botafogo – praça Chahim Weitzmann, praça Joia Valansi, parque Yitzhak Rabin e rua Teodor Herzl – refletem a importância histórica da comunidade judaica no bairro, houve um tempo de intolerância, em que a prática do judaísmo – ou de qualquer outra religião diferente do catolicismo – era proibida e, em alguns casos, punida com a morte. Foi o caso de Antônio José da Silva “O Judeu”, nascido em Botafogo – segundo alguns pesquisadores –, no dia 8 de maio de 1705. Em plena vigência da Santa Inquisição Portuguesa (1553-1821), Antônio José mudou-se com a família para Portugal para acompanhar a mãe Lourença Coutinho, que havia sido acusada de judaísmo e para lá deportada. Na capital portuguesa, ele se formou em advocacia, mas foi como dramaturgo que se notabilizou e incomodou os poderosos com comédias de costumes repletas de crítica social. Foi preso várias vezes por judaísmo, torturado e, finalmente, executado em 1739, por ordem do tribunal do Santo Ofício.

 

Após o fim da Inquisição, outras religiões passaram a ser toleradas no Brasil – a liberdade religiosa completa só viria com a primeira Constituição da República em 1891 –, abrindo caminho para a criação da União Israelita Shel Guemilut Hassadim em 1840, de acordo com o advogado Fortunato Azulay e os historiadores Egon e Frieda Wolff. O endereço da sinagoga nos primeiros 20 anos foi um sobrado da Praça da República, esquina da rua Senhor dos Passos. De lá, mudou-se, sucessivamente, para a rua da Alfândega 358 (1860-1900), rua São Pedro (desaparecida com a abertura da avenida Presidente Vargas) 300 (1900-1920), rua do Lavradio 90 (1921-1935), rua Francisco Muratori 33 (1935-1950) e, finalmente, para o atual endereço, na rua Rodrigo de Brito 37.

 

A tradução para o português da Enciclopédia Judaica acrescenta alguns detalhes históricos:

 

"Organizaram-na israelitas marroquinos com o objetivo precípuo de manter uma Sinagoga, primeiramente instalada num sobrado da Praça da República, esquina de Senhor dos Passos, após 20 anos, transferindo-se posteriormente para um salão maior na Rua São Pedro, 300. Em 10 de março de 1912, após uma cisão em que se afastaram principalmente os israelitas de origem francesa que haviam constituído uma Sinagoga à parte, a sociedade organizou-se como entidade jurídica. Terminada a I Guerra Mundial, a maioria das famíias filiadas à Sinagoga francesa retornaram à Europa, contribuindo para que as aqui remanescentes (tais como Moses, Kanitz, Wellish, Liebmann, Schlesinger) tornassem a ingressar na sociedade. Em 1921, a Sinagoga transferiu-se para a Rua do Lavradio, 90, e em 1935 para a Rua Francisco Muratori, 33. Com o crescimento do número de Congregados, que hoje ascende a 300, deliberou-se, sob os auspícios de Jomtob Azulay e Rafael Serruya, construir um templo próprio na Rua Rodrigo de Brito 37, inaugurado em 7 de setembro de 1950."

 

Nos primeiros anos, a sinagoga funcionou na semiclandestinidade. Mesmo quando foi legalizada em 1873 – por meio do Decreto Imperial n" 5.202 assinado por Dom Pedro II –, não havia qualquer menção à prática religiosa em seu estatuto, dando a entender que se tratava de uma sociedade de ajuda aos necessitados daquela comunidade, sem qualquer caráter religioso.

 

Somente com o advento da República, a liberdade religiosa foi conquistada. Graças à Constituição de 1891, que promoveu a separação entre a Igreja e o Estado, a Shel Guemilut Hassadim e tantas outras organizações religiosas puderam professar sua fé sem medo de sofrerem perseguições. A Constituição de 1988, seguindo a tradição das constituições republicanas que a antecederam, estabelece, no Artigo 5º, que

 

“(...) é inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e a suas liturgias (...)

 

Numa época em que a intolerância religiosa ressurge, vale lembrar o quanto de sofrimento o fundamentalismo religioso causou no passado, em memória de judeus, muçulmanos, espíritas, umbandistas, candomblecistas, cristãos e adeptos de tantas outras religiões que padeceram por causa da perseguição religiosa. A história da civilização nos ensina que devemos conviver em paz respeitando as nossas diferenças.

 

N.R. – Além da Shel Guemilut Hassadim, existem, em Botafogo, dois outros templos que professam o judaísmo: a Associação Religiosa Israelita (ARI), na rua General Severiano 170, e o Beth B'nei Tsion Jewish Adventist Temple, na rua Dezenove de Fevereiro 140.

 

Shel Guemilut Hassadim

 

Fontes de pesquisa:
 

MORAIS, RONALDO Vítimas da Inquisição no Rio de Janeiro, 2016

DINES, ALBERTO Vínculo do fogo: Antonio José de Silva, o judeu, e outras histórias de inquisição em Portugal e no Brasil, Companhia das Letras, 1992

http://sinagogashel.com/historico.html

 

* Antonio Augusto Brito é jornalista e adora história do Brasil

 

Outras histórias
 

Quem foram os voluntários da pátria?

A origem nada santa da rua São Clemente

Por que aquele canto da praia é chamado de Mourisco?

Dezenove de Fevereiro: de Pernambuco a Botafogo

Já se curtia Botafogo no tempo das diligências

Palácio da Cidade e dos cariocas

Botafogo é a melhor diversão

A rua mais antiga de Botafogo

Em terra de santa, quem batiza rua é padre

Nada é para sempre

Palácio dos Loucos

Eram todos policarpos

O crime que abalou o Rio

Rema, rema, rema, remador...

Igreja de Botafogo pode virar local de peregrinação

O general, o cachorro e a estátua viajante

O ex-futuro barão que vivia em Botafogo

Afonso Arinos

Saliência em Botafogo

Uma padaria de Botafogo na história do rádio

O fim trágico do Dr. Arnaldo Quintella

Sempre é tempo de Glauber

Árvore de 150 anos faz parte da história de Botafogo

Triângulo amoroso no high society

Um arquiteto de duas cidades

Casado com a inimiga

Jorge Street, o "industrial socialista"

Botafogo dos bambas

O Velho Guerreiro já morou em Botafogo

Lembranças de um gênio esquecido

O combate da rua da Passagem

Prazer e negócios

Da tragédia à solidariedade

Garota de Botafogo

Morte nos ares

Ziriguidum em Botafogo

Libertadores das Américas

José do Patrocínio e a Torturadora de Botafogo

Os limites de Botafogo

Foliões de Botafogo

Amor proibido

"Pai do Automobilismo" em Botafogo

O advogado do diabo e os ossos de Dana de Teffé

Biscoito Globo, sal e doce!

Fogo na Favela do Pasmado ou como nascem as Marielles

A infância em Botafogo de Luís Carlos Prestes

Guerra e Paz

O endereço mais famoso de Botafogo

Botafogo nas telas de pintores viajantes

Sorriso negro de Botafogo

Tráfico ilegal de escravos em Botafogo

O historiador caboclo de Botafogo

Jacob do Bandolim em Botafogo

Um regente do Império em Botafogo

Desaparecido

Tragam seus mortos

Solo sagrado de Botafogo

Craque com fama de rebelde

Pasmado - histórias e polêmicas

Poder e loucura

Quem foi rei nunca perde a majestade

Os irmãos Farani

Elizeth Cardoso, a Divina, morou em Botafogo

Cemitério de celebridades

Negócios e cavalos

Bambina

D. Pedro I se regenerou em Botafogo

Tragédia em Botafogo

Genocídio indígena

Abílio Borges, educador do século 19

Um aventureiro em Botafogo

Solar da Fossa

Pasquim

O Teatro Jovem e o Rosa de Ouro

Barbosa Lima Sobrinho, um democrata

O encontro do professor com o militar

Um malandro em Botafogo

O crime da Praia de Botafogo

O Marechal Niemeyer

 

 

Share on Facebook
Share on Twitter
Please reload