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Craque com fama de rebelde

 

O jogador Paulo Cézar Lima – o Paulo Cézar “Caju” – saiu da Favela da Cocheira, em Botafogo, para estrear no Botafogo Futebol e Regatas, em 1967, aos 18 anos.  Enfrentou o preconceito dentro e fora de campo e se tornou um dos jogadores brasileiros mais vitoriosos da história.

 

Aos 10 anos, Paulo Cézar já mostrava no futebol de salão os dribles que havia aprendido na rua Aníbal Reis, na Favela da Cocheira – próxima ao Cemitério São João Batista –, onde vivia com a mãe dona Esmeralda, empregada doméstica. Ele se destacava tanto que um colega do time, Fred, virou para o pai e disse: “Adota ele!”. O pai era Marinho Oliveira, ex-jogador e treinador, que virou mentor de Paulo Cézar, com a concordância de dona Esmeralda, de quem o filho nunca se afastou. Com Fred e Marinho Oliveira, Paulo Cézar passou uma longa temporada em Honduras e na Colômbia, retornando aos 15 anos, para começar nos juvenis do Glorioso.  

 

Em campo, o futebol de Paulo Cézar era vistoso. Ele era um meia-atacante habilidoso, que armava as jogadas pela esquerda, com a bola colada aos pés, até chegar à área adversária para finalizar. Tanto fazia chutar com o pé esquerdo ou com o direito; a precisão era a mesma. Quando o meia Gerson se machucou durante a Copa do Mundo de 1970, Paulo Cézar o substituiu nos jogos contra a Romênia e a Inglaterra – então campeã do mundo –, sem que a seleção perdesse qualidade.

 

Fora de campo, Paulo Cézar tinha opiniões próprias e recusava o papel de negro “que sabe o seu lugar”. Em 1968, ao voltar de uma excursão do Botafogo aos EUA, chegou de cabelos pintados de vermelho em homenagem aos Panteras Negras, partido revolucionário de orientação marxista, que lutava pelos direitos negros. Vem daí o apelido “Caju”.  Desfilava pela cidade de conversível, acompanhado de belas moças brancas – para ira da sociedade “não somos racistas” carioca –, ostentando cabeleira black power, roupas reluzentes, óculos escuros, colares e anéis. Nas boates da moda, nas ruas e na praia, Paulo Cézar Caju era o cara!

 

No pior momento da ditadura militar, Caju escrevia para o semanário de esquerda O Pasquim e batia bola com os amigos Chico Buarque e Bob Marley. Só não passou pelo pior porque era campeão do mundo e jogava muita bola.

 

Profissionalmente, Paulo Cézar Caju sabia quanto seu futebol valia. Ao contrário de craques do passado, como os bicampeões mundiais Nilton Santos e Garrincha, que assinavam contratos com o valor de seus salários em branco, Caju tinha uma relação profissional com os clubes que o empregavam. "Sempre troquei de time por interesses profissionais", disse em uma entrevista à revista Placar, em 1979. "E acho que deve ser assim mesmo, pois a carreira é curta”.

 

Ele não se enquadrava no modelo racista e conservador do mundo do futebol. E com frequência virava alvo de imprensa, dirigentes e torcedores. Mas sempre havia mais de um clube interessado em seu futebol.  Ao deixar o Botafogo em 1971, após conquistar a Taça Brasil e os campeonatos cariocas de 1967 e 1968, Paulo Cézar foi campeão carioca em 1972 e 1974 pelo Flamengo; campeão da Copa da França, em 1975, pelo Olympique de Marseille; campeão carioca pelo Fluminense em 1975 e 1976; e campeão gaúcho de 1979 e 1980, campeão da Taça Libertadores da América e campeão do mundo em 1983, pelo Grêmio.

 

Em 2005, Paulo Cézar Caju foi finalmente homenageado pelo clube em que iniciou a carreira, com o lançamento de uma camisa comemorativa com seu nome e o número 11 às costas. Em 2016, nova homenagem. Dessa vez, ele foi condecorado pelo presidente da França, François Hollande, com a medalha de Cavaleiro da Ordem Nacional da Legião de Honra, honraria máxima daquele país, em reconhecimento por seu papel como ativista contra o racismo no futebol.

 

Caju com o amigo Bob Marley, que pediu para conhecê-lo. (GAB Archive Redferns)

 

Condecorado pelo presidente da França (Jack Guess / AFP)

 

* Antonio Augusto Brito é jornalista e adora história do Brasil

 

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