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22.10.2019

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INGLÊS SOB MEDIDA

AULAS PARTICULARES

Tragam seus mortos

 

 

Em 1918, o biólogo, médico sanitarista, cientista e bacteriologista Carlos Chagas, morador de Botafogo, foi convocado para coordenar o combate à terrível pandemia da Gripe Espanhola. Em menos de três meses, metade da população do Rio de Janeiro foi contaminada, quase 15 mil pessoas morreram, incluindo o presidente da República eleito.

 

Antes da Gripe, achava a morte rigorosamente linda. Linda pelos cavalos, e pelas plumas negras, e pelos dourados, e pelas alças de prata. Lembro-me que, na primeira morte adulta que vi, cravou-se em mim a lembrança dos sapatos, inconsoláveis, tristíssimos sapatos. A Espanhola arrancou tudo, pisou nas dálias, estraçalhou as coroas. (Nelson Rodrigues)

 

No final de setembro de 1918, chegou ao Brasil, vindo da Europa, o vapor Demerara. Com ele, veio a Gripe Espanhola, uma gripe influenza provocada por um vírus do tipo H1N1. A gripe ganhou o nome de Espanhola devido à enorme quantidade de vítimas naquele país. Mas não apenas lá. Nas trincheiras da Primeira Grande Guerra, morriam mais soldados por causa da gripe do que pelas armas. Os sintomas e a evolução da Espanhola eram terríveis: começava como o tipo comum de gripe, mas rapidamente evoluía para um tipo viscoso de pneumonia nunca antes visto. Na fase seguinte – que durava poucas horas –, os doentes adquiriam manchas castanho-avermelhadas nas maçãs do rosto, que, em seguida, ficava azulado. A morte vinha em poucas horas, por asfixia.

 

Na Capital Federal, os efeitos da pandemia foram devastadores. Em poucas semanas, metade dos cariocas estava de cama. O escritor Pedro Nava, em sua obra Chão de Ferro, registrou aqueles dias:

 

“Aterrava a velocidade do contágio e o número de pessoas que estavam sendo acometidas. Nenhuma de nossas calamidades chegara aos pés da moléstia reinante: o terrível não era o número de casualidades - mas não haver quem fabricasse caixões, quem os levasse ao cemitério, quem abrisse covas e enterrasse os mortos. O espantoso já não era a quantidade de doentes, mas o fato de estarem quase todos doentes, a impossibilidade de ajudar, tratar, transportar comida, vender gêneros, aviar receitas, exercer, em suma, os misteres indispensáveis à vida coletiva”.

 

Combatendo a Espanhola

 

Desde 1904, o cientista Carlos Chagas morava em Botafogo – primeiramente na rua Voluntários da Pátria e, mais tarde, na Vila Isabel de Pinho, na rua Camuirano – com a esposa Íris Lobo, filha de um senador mineiro, apresentada a ele por Miguel Couto, clínico geral, professor e político. Miguel Couto e Oswaldo Cruz, ambos também moradores do bairro, exerceriam grande influência na carreira de Carlos Chagas; o primeiro, por ensinar métodos e princípios da experimentação, visando ao diagnóstico e ao estudo clínico das doenças; o segundo, por empregá-lo no Instituto Soroterápico Federal, mais tarde Instituto Oswaldo Cruz.

 

Carlos Chagas tornou-se um cientista brilhante, o único na história a descrever todo o ciclo – patógeno, vetor (triatominae), hospedeiros, manifestações clínicas e epidemiologia – de uma doença infecciosa, no caso, a doença de Chagas.

 

Com a morte de Oswaldo Cruz, em 1917, Chagas assumiu a direção do instituto, e coube a ele liderar o combate à Gripe Espanhola. Não era tarefa fácil – o próprio cientista, mulher e filhos estavam doentes –, mas ele não perdeu tempo: começou o trabalho mandando instalar cinco hospitais emergenciais e 27 postos de saúde espalhados por toda a cidade. Ao mesmo tempo, convocou clínicos cariocas e membros da Academia Nacional de Medicina para cuidar dos doentes, enquanto o instituto pesquisava a doença, suas causas, meio de contágio e diagnóstico.

 

As ruas da capital do país – na época, com cerca de um milhão de habitantes – estavam desertas. Bancos, escolas, repartições, teatros, bares e clubes ficaram vazios, por falta de funcionários ou de quem os frequentasse. Naqueles dias de horror, corpos eram recolhidos nas casas diariamente.

 

“As funerárias não davam vazão – havia falta de caixões. Até de madeira para fabricá-los. Quando ataúde havia, não tinha quem os transportasse, e eles iam para o cemitério a mão, de burro-sem-rabo, arrastados, ou atravessados nos táxis. No fim, os corpos iam em caminhões, misturados uns aos outros, diziam que às vezes vivos, junto com os mortos. Havia troca de cadáveres podres por mais frescos, cada qual querendo se ver livre do ente querido que começava a inchar, a empestar.” (Pedro Nava, em Chão de Ferro)

 

 

Em dezembro, a epidemia estava finalmente controlada. Seu saldo foram cerca de 300 mil mortes em todo o país, sendo 14.348 mortes somente na cidade do Rio de Janeiro. Entre os mortos estava Rodrigues Alves (foto), presidente eleito para um segundo mandato, que morreu em janeiro de 1919, antes de tomar posse. Ironicamente, foi no primeiro mandato de Rodrigues Alves que Oswaldo Cruz erradicou a febre amarela, a peste bubônica e deu início à erradicação da varíola. Todo o esforço de sua administração para combater as epidemias não poupou sua vida quando a Espanhola chegou.

 

Na Praia de Botafogo, duas estátuas homenageiam os cientistas Carlos Chagas e seu mestre, Oswaldo Cruz, por sua luta sem tréguas em favor da saúde pública.

 

Carlos Chagas e Oswaldo Cruz, na Praça Nicarágua, em Botafogo

 

Mais da metade da população do Rio adoeceu

 

Charge da época

 

 

* Antonio Augusto Brito é jornalista e adora história do Brasil

 

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