© 2017 CURTA BOTAFOGO | Direitos reservados | Reprodução autorizada desde que citada a fonte. 

  • Facebook Social Icon

POSTS RECENTES: 

22.10.2019

Please reload

INGLÊS SOB MEDIDA

AULAS PARTICULARES

Amor proibido

Anita e Nilo Peçanha
 

Contra a vontade da família aristocrática e poderosa, ela fugiu do interior com seu amor – um mulato, filho de um padeiro do Morro do Coco – para se casarem na igreja São João Batista da Lagoa, em Botafogo. Em pouco tempo, ele seria o sétimo presidente da República do Brasil.

 

Parece conto de fadas, mas aconteceu de verdade.

 

Nilo Procópio Peçanha era um jovem e brilhante político de Campos, de origem humilde. Seu pai era conhecido no Morro do Coco como “Sebastião da Padaria”, e Nilo Peçanha costumava dizer que havia sido criado com pão dormido e paçoca. Com muito sacrifício dos pais, ele estudou no Liceu de Humanidades de Campos e se formou em Direito pela Faculdade do Recife em 1887, aos vinte anos.

 

Inteligente, sedutor e bom de oratória, Nilo Peçanha logo iniciou sua carreira política. Abolicionista e republicano, em 1890 foi eleito deputado constituinte; e era deputado estadual em 1893, quando conheceu o amor de sua vida.

 

Ana de Castro Belisário Soares de Sousa – conhecida, simplesmente, como "Anita" – era de família nobre e rica de Campos dos Goytacazes, neta do Visconde de Santa Rita – em cuja residência o imperador D. Pedro II chegou a se hospedar – e bisneta do Barão de Muriaé e do primeiro Barão de Santa Rita.

 

A família havia feito fortuna, durante o século XIX, com a indústria da cana de açúcar. Anita era, portanto, uma autêntica representante da “nobreza do melado”. E, como tal, havia recebido a melhor educação possível.

 

Anita já admirava Nilo por causa dos artigos que ele escrevia para o Monitor Campista, jornal que ela lia com bastante interesse. O pai de Anita, o advogado João Belisário Soares de Souza, tinha simpatia pelo rapaz – chegou a declarar-se seu eleitor –, mas o problema era a mãe, D. Ana Raquel Ribeiro de Castro, que se opunha ferozmente ao romance de sua filha com um mestiço de família pobre.

 

A fuga

 

Se as coisas já não iam bem, a morte de João Belisário deixou a situação insustentável. Anita e Nilo, então, resolveram fugir. Anita foi para a casa de sua tia Alice, e, no dia 6 de dezembro de 1895, os dois se casaram na Igreja de São João Batista da Lagoa, na rua Voluntários da Pátria 287, em Botafogo. O oficiante foi o padre Pelinca, vigário da paróquia de São Salvador de Campos dos Goytacazes.

 

A carreira política de Nilo Peçanha deslanchou. Em 1903, foi eleito sucessivamente senador e presidente do Estado do Rio de Janeiro – equivalente ao cargo de governador do antigo Estado do Rio –, ficando no cargo até 1906, quando foi eleito vice-presidente de Afonso Pena. Com a morte de Afonso Pena, em 1909, Nilo Peçanha tornou-se, aos 42 anos, o 7º presidente da República.

 

A imprensa ora o ridicularizava por sua negritude, nas charges políticas como “o mulato do morro do Coco”, ora o acusava de mandar “esbranquiçar” as fotografias oficiais. Além disso, havia a pressão de políticos da oposição e de ex-aliados, como o gaúcho Pinheiro Machado. Apesar do fogo cerrado, Nilo Peçanha (foto) saiu-se bem na presidência e conseguiu fazer seu sucessor, Hermes da Fonseca.

 

Durante seu governo, com o lema “paz e amor”, Nilo Peçanha criou o Ministério da Agricultura, Comércio e Indústria, o Serviço de Proteção aos Índios – SPI, antecessor da Funai – e inaugurou o ensino técnico no Brasil.

 

Anita, longe de fazer figuração como esposa recatada e do lar, tinha personalidade. E, ao contrário do marido, político habilidoso que não guardava rancores, ela era inclemente com aqueles que o ofendiam. Certa vez, em uma recepção no Palácio do Catete, Pinheiro Machado falava de Anita para outras pessoas, de forma que ela ouvisse:

 

"Essa menina não gosta de mim. No entanto, eu gosto mais dela do que do marido." 

 

Anita voltou-se rapidamente, fixou o olhar no general e disse:

 

"Eu dispenso a preferência. Quem não gosta do meu marido não gosta de mim."

 

Nilo e Anita tiveram três filhos – Nilo, Zulma e Mário –, mas todos morreram logo após o nascimento. O casal distribuía afeto aos muitos animais de estimação que tiveram ao longo de 29 anos de um casamento feliz, como o cãozinho Jiqui, que morou no Palácio do Catete enquanto Nilo foi presidente.

 

Nilo Peçanha morreu em 1924, afastado da política, e foi enterrado no Cemitério São João Batista, em Botafogo. Anita Peçanha morreria em 1960.

 

Uma curiosidade: Anita Peçanha levou para o Palácio do Catete o cozinheiro Luís Cipriano, que havia conhecido em visita a uma prima, em Macaé. Cipriano era o avô materno de Angenor de Oliveira, o famoso compositor Cartola.

 

 jiqui, morador do Palácio do Catete durante a presidência de Nilo Peçanha

  

* Antonio Augusto Brito é jornalista e adora história do Brasil

 

Outras histórias
 

Quem foram os voluntários da pátria?

A origem nada santa da rua São Clemente

Por que aquele canto da praia é chamado de Mourisco?

Dezenove de Fevereiro: de Pernambuco a Botafogo

Já se curtia Botafogo no tempo das diligências

Palácio da Cidade e dos cariocas

Botafogo é a melhor diversão

A rua mais antiga de Botafogo

Em terra de santa, quem batiza rua é padre

Nada é para sempre

Palácio dos Loucos

Eram todos policarpos

O crime que abalou o Rio

Rema, rema, rema, remador...

Igreja de Botafogo pode virar local de peregrinação

O general, o cachorro e a estátua viajante

O ex-futuro barão que vivia em Botafogo

Afonso Arinos

Saliência em Botafogo

Uma padaria de Botafogo na história do rádio

O fim trágico do Dr. Arnaldo Quintella

Sempre é tempo de Glauber

Árvore de 150 anos faz parte da história de Botafogo

Triângulo amoroso no high society

Um arquiteto de duas cidades

Casado com a inimiga

Jorge Street, o "industrial socialista"

Botafogo dos bambas

O Velho Guerreiro já morou em Botafogo

Lembranças de um gênio esquecido

O combate da rua da Passagem

Prazer e negócios

Da tragédia à solidariedade

Garota de Botafogo

Morte nos ares

Ziriguidum em Botafogo

Libertadores das Américas

José do Patrocínio e a Torturadora de Botafogo

Os limites de Botafogo

Foliões de Botafogo

 

 

Share on Facebook
Share on Twitter
Please reload