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Moradas

08.12.2017

 

Não nasci em Botafogo. Mas por ali morei por duas vezes, e numa época ainda bucólica, de bonde circulando e tudo. Cheguei à maravilhosa cidade numa tarde do início de 1935, no auge de meus 14 anos. Era a Capital Federal da nossa Belle Époque. Palco de apogeu e decadência de Vargas – e do levante comunista. Mas também do biquíni, da Confeitaria Colombo, do samba e da minissaia.

 

Vim de longe. De terras distantes: dos confins da mais longínqua Europa. Antes do Rio, fiz morada nas Alagoas e no Recife.

 

Primeiro, vivi num quartinho de pensão no Flamengo; em seguida rumamos todos da família para a rua Mariz e Barros, na Tijuca.

 

Em 1938, embora ainda não morasse no bairro, já estava com matrícula no colégio Andrews, da praia de Botafogo.

 

Quando comecei a escrever profissionalmente, por volta de 1940, passei, então, sem muito conforto, a morar com minhas irmãs, no Catete.

 

Era hábito entre europeus e asiáticos de nomes exóticos a troca, na busca de acompanhar antropônimos da tradição local. Em 1941, portanto, quando pude me naturalizar, aos 21 anos de idade, mudei também de nome. Ou seja: em verdade, até a idade adulta, eu era um híbrido de escritora ucraniana que morava no Brasil e me expressava em português.

 

 

Foi aí então que, de Chaya, virei Clarice.

 

No ano seguinte conceberia aquela que a crítica consideraria minha opera prima. Título sugerido pelo amigo – e quase amante – Lucio Cardoso, Perto do coração selvagem, foi gerado em nove meses de isolamento, já morando no bairro de Botafogo.

 

Depois, quase famosa, casei-me com um cônsul. E o périplo se intensificaria. Primeiro o bairro da Glória e, em seguida, antes de retornar às terras europeias, devido à profissão do marido, iríamos morar no segundo endereço no bairro de Botafogo, bem ali, na São Clemente.

 

Depois, já com dois filhos de colo, e de volta da Europa, a morada será no primeiro endereço do Leme, onde nasceria também A paixão segundo G.H. Ainda no mesmo bairro, compraria aquele que, no Rio, foi meu endereço definitivo.

 

Às vésperas de minha 56ª primavera, eu – Chaya, tornada Clarice – faleceria. Contudo, por ser dia de shabbat, só pude ocupar espaço no bairro do Caju na manhã seguinte, no Cemitério Israelita.

 

Minha última morada.

 

 

 

*Lucio Valentim é professor de Literaturas, doutor em Letras Vernáculas e pesquisador visitante no Programa Avançado de Cultura Contemporânea (PACC) da UFRJ

 

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