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Mineirices

26.11.2017

Murilo Mendes e Fernando Sabino. Mineirices.
 

Esses mineiros são terríveis. E, a despeito do dito popular – de que comem quietos –, há variada sorte deles, sobretudo quando são escritores. Certa vez veio uma leva de lá de Minas: Fernando Sabino, Hélio Pellegrino, Paulo Mendes Campos, Otto Lara Resende, os chamados “Quatro Cavaleiros do Apocalipse”.

 

Dos quatro cavaleiros que fincaram raízes aqui na cidade maravilhosa, destacamos aleatoriamente a prosa de Fernando Sabino, e a misteriosa visão que o cronista registra do Rio, embebido pela grandiosidade do mar e da cidade – totalmente absorta em falsos valores e absorvida em si mesma. Assim é na crônica O Afogado:

 

Imaginem que tinha um homem se afogando na praia de Botafogo e vários carros já haviam parado pra ver. Ele parou atrás, junto à calçada. Então veio outro carro em disparada e bateu em cheio no dele. (...) todos lastimavam a falta de sorte do amigo. (...) menos eu (...) pensativo (...) o que foi que aconteceu com o homem que estava se afogando.

 

Cavaleiro audaz, Sabino também enveredaria pela narrativa longa, e n’O encontro marcado, romance meio autobiográfico, o autor consegue idealizar um encontro futuro entre os quatro amigos mineiros. Este evento se daria – partindo das terras mineiras – na cidade do Rio, onde o atormentado protagonista Eduardo vai tentar reerguer a vida:

 

— Sabe? Precisamos mudar de vida, antes que eu enlouqueça: mudar completamente. Mudar de bairro,mudar de hábitos, de amigos, de nome (...)E acrescentou (...):— Isso é brincadeira, ouviu? Isso de mudar de nome. Ainda não enlouqueci.

 

Porém, para que o tal encontro marcado se desse, tendo o seu protagonista física e mentalmente inteiro, a solução mineira de Sabino foi enviá-lo a um bairro que lhe trouxesse tranquilidade:

 

Transferiram-se para um apartamento maior, em Botafogo. Aos poucos tudo ia se acomodando:tomavam gosto pelo lugar, mandaram reformar os móveis, decorar as salas. (...) Desta vez haveria de vencer.

 

Dos mineiros que habitaram a cidade em épocas outras – e outrora já citados –, vale destacar, apenas para que se registre no anedotário surrealista que cerca o poeta vindo do interior, uma passagem de Murilo Mendes. Tendo escolhido o bairro para morar, devido à arquitetura colonial que lembrava a de sua cidade, certa vez vendo uma jovem à janela de um sobrado de Botafogo, o poeta, num surto de excentricidade, bradou, curvando-se: “Há muito tempo não via uma mulher na janela! É um quadro belíssimo, minha senhora”! Para espanto da jovem, que, de susto e de medo, simplesmente trancou-se, abismada.

 

 

*Lucio Valentim é professor de Literaturas, doutor em Letras Vernáculas e pesquisador visitante no Programa Avançado de Cultura Contemporânea (PACC) da UFRJ

 

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