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22.10.2019

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AULAS PARTICULARES

Jorge Street, o “industrial socialista”

 

O número 52 da rua Visconde de Caravelas já foi endereço de uma fábrica de lãs pertencente ao carioca Jorge Luís Gustavo Street (1863-1939). Médico por formação, ele revelaria sua verdadeira vocação na indústria têxtil a partir de 1896, quando ganhou do pai ações da fábrica de sacos de juta São João. Os sacos eram essenciais para a exportação do café, então o principal produto brasileiro, por facilitar o transporte e padronizar a negociação em sacas – sacos de 60 kg. Em poucos anos, ele se tornou um dos maiores empresários do setor, diversificando, adquirindo ou inaugurando fábricas no Rio de Janeiro e em São Paulo.

 

Jorge Street foi um líder empresarial importante. Entre 1900 e 1934, foi eleito para diretorias das principais associações da indústria, entre elas o Centro Industrial do Estado de São Paulo (CIESP) – futura FIESP. Por meio de entrevistas ou de matérias pagas nos principais jornais, o industrial defendia o protecionismo alfandegário como forma de estimular o crescimento da nascente indústria. “Todas as classes produtoras – proprietárias ou não – devem ser estimuladas e amparadas pelo governo. O aumento da produção traz a prosperidade geral, de que todas as classes partilham”, escreveu.

 Foto da primeira diretoria da CIESP, futura FIESP. Jorge Street é o segundo sentado

 

Mas foram as inovações de Jorge Street no campo social que lhe renderam notoriedade.

Inconformado com as moradias insalubres dos operários – muitos morriam de tuberculose, sífilis, tifo, difteria e varíola –, o empresário iniciou, em 1912, a construção da vila operária Maria Zélia, no bairro de Belenzinho, em São Paulo. O nome da vila foi em homenagem a uma de suas filhas, que havia morrido de tuberculose. No projeto revolucionário, havia seis ruas principais e duas transversais, 198 casas, farmácia, consultórios médicos e odontológicos, creche, jardim da infância, escola de meninos e meninas, armazém, açougue, restaurante, igreja, teatro, salão de baile, quadras esportivas e campo de futebol. A vila era um laboratório para inspirar uma futura legislação trabalhista, abertamente defendida por Street.

 

Em 1917, o industrial apoiou a greve dos operários que reivindicavam aumento de 20%. Na reunião do patronato, Street – que já havia concedido o aumento – disse que os operários tinham razão: “é um problema social, que exige solução rápida e humana”. Ele foi o primeiro a reconhecer o direito de greve e a negociar com sindicatos dos trabalhadores, até então considerados assunto de polícia. “É natural o operário protestar contra a tendência de o capital impor o máximo de trabalho com um mínimo de salário”, afirmou. “Nós, patrões, perdemos a vantagem e temos que tratar com uma associação pelo menos tão forte como nós.” Pouco tempo depois, Street concedeu férias remuneradas aos seus empregados, para desespero de seus pares, que o apelidaram de “industrial socialista”, um evidente exagero. O empresário adotou uma gestão arrojada para suas empresas. Na maioria das vezes, foi bem sucedido. Ele havia aprendido, em suas temporadas na Europa, que boas condições de trabalho eram boas para os negócios.

 

Em 1931, aos 66 anos e já afastado da indústria, foi nomeado diretor-geral do Departamento Nacional de Indústria e Comércio. A legislação trabalhista, enfim criada no governo Vargas, nasceu, em boa parte, das ideias pioneiras de Jorge Street.

 

A “modernização da legislação trabalhista”, proposta e aprovada pelo atual governo, nada tem de inovadora. Na verdade, ela representa um retrocesso de quase cem anos, de volta ao período pré-industrial, quando as condições precárias de trabalho eram a regra. Street era a exceção.

 

 Uma das fábricas de Jorge Street, a Botafogo


 

  * Antonio Augusto Brito é jornalista e adora história do Brasil

 

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