© 2017 CURTA BOTAFOGO | Direitos reservados | Reprodução autorizada desde que citada a fonte. 

  • Facebook Social Icon

POSTS RECENTES: 

22.10.2019

Please reload

INGLÊS SOB MEDIDA

AULAS PARTICULARES

Bah, Bilac!

03.11.2017

 

 

Conhecemos mesmo nossos escritores? Refiro-me aqui às obras, posto que, de nome, alguns são deveras consagrados. Uma despretensiosa enquete comprovaria que o conhecimento que se tem é ínfimo diante da magnitude da Obra, uma vez que setorizamos e estigmatizamos, didaticamente, sua produção de acordo com as convenções estéticas e mercadológicas do momento.

 

Olavo Bilac, por exemplo, é um daqueles cariocas preteridos, face a outros nomes fluminenses exaustivamente citados. Jornalista, cronista e poeta, Bilac ficaria conhecido apenas como uma das vozes poéticas da elite parnasiana: aristocrática e nefelibata. E, desta forma, a história literária o consagraria como o poeta que vivera a escrever isolado no aconchego do lar e “longe do estéril turbilhão da rua”. Estes versos de “A um Poeta”, aliás, ficariam cristalizados e estabelecidos pela crítica bilaquiana como base e parâmetro da proposta estética do movimento Parnasiano.

 

Contudo, tais versos não condizem com a natureza juvenil e aventureira do poeta, criado nos subúrbios do Rio de janeiro.

 

Oriundo da Rua da Vala – sugestivo recinto pútrido do Centro do Rio e que, concomitante à polêmica reforma do então prefeito Pereira Passos, transformar-se-ia no que hoje é a Avenida Uruguaiana –, Bilac figura como filho legítimo da cidade. Junto a outros nomes como João do Rio, Machado de Assis ou Lima Barreto, Bilac também fora um dos grandes cronistas, dos subúrbios à Zona Sul.

 

Por Parnasiano que era, a impressão que a história deixa é a de que o poeta vivia nas nuvens, ou a “Ouvir estrelas”, como neste clássico

 

"Ora (direis) ouvir estrelas! Certo, 
Perdeste o senso!" E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muitas vezes desperto
E abro as janelas, pálido de espanto...

 

parafraseado por Belchior na canção “Divina comédia humana”.

 

É mero fingimento poético, também, os versos que emolduram a abnegação e o isolamento parnasianos do poeta,  

 

(...) escreve! No aconchego
Do claustro, na paciência e no sossego, 
Trabalha, e teima, e lima, e sofre, e sua!

 

uma vez que – sempre folgazão e beberrão – o playboy Bilac protagonizaria um dos mais inusitados episódios de rua ocorridos naquele Rio de então.

 

Consta que o primeiríssimo automóvel da cidade – quiçá do país – pertencera, curiosamente, a um negro abolicionista (coisas do Brasil!), José do Patrocínio; e que este patrocinara uma aula grátis de direção ao amigo Olavo.

 

O jovem Bilac, encantador de plateias e moças com inflamados e inteligentes discursos, viveria na zona sul de Botafogo o seu mais bizarro episódio off poesia: descontrolado na direção do imponente Gardner-Serpollet francês, 1897, com 8 HP de potência, o poeta de Fanfarras protagonizaria o primeiro acidente automobilístico da cidade, ao perder a direção e arrebentar-se num poste da Rua da Passagem.

 

Era o ano de 1901.

 

Sob vaias homéricas, o encantador de plateias viveria, ali, a primeira perda total de nossa história poético-automobilística. Episódio que, anos mais tarde, o próprio revelaria em crônica, prevendo o futuro da geringonça e da cidade:

 

Hoje, já os automóveis são dez ou doze; e já ninguém se deixa embasbacar pelo espetáculo dessas carruagens milagrosas, (...) mostrando o que será, daqui a poucos anos, quando a reforma do calçamento da cidade estiver ultimada.

 

 Modelo de automóvel semelhante ao que Bilac dirigiu causando o primeiro acidente de carro do país.

 

 

 

 

*Lucio Valentim é professor de Literaturas, doutor em Letras Vernáculas e pesquisador visitante no Programa Avançado de Cultura Contemporânea (PACC) da UFRJ

 

Artigos anteriores

 

Baudelaire tupiniquim

Cabeça de porco

Triângulos machadianos

Cronistas de época

Vinicius: primeiro amor em Botafogo

Botafogo do caos surreal

O cego mascando chicles

Pisava nos astros

Bandeira em Botafogo

Leite derramado em Botafogo

Existirmos

Hospício

Botafogo épico

Baú de ossos

Farofa mecânica

Drummond carioca

Clarão de Clarice

Roda da fortuna

Amor mendigo

Último baile

O dono do Dona

Corno manso

Questão de ordem!

Onde está Waly?

Animal poético

Luz de Lucinda

 

 

Share on Facebook
Share on Twitter
Please reload