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INGLÊS SOB MEDIDA

AULAS PARTICULARES

Neologismo

13.10.2017

  

 

 

Cada um sustenta seu credo – e que este não se misture com política, sim? Obrigado.

Tarde demais para o Rio de Janeiro.

Mas não para a afirmação inicial.

De modo que essa febre de crossfit fez surgir pequenas guildas em pontos capitais do globo.

Entretanto, aqui, o mundo é o que se alonga do rabo do Humaitá à extinta Fornalha (hoje, Catarina – mas a coxinha se mantém inigualável) na esquina da Marquês de Abrantes.

E é por aqui que me atenho agora.

 

Aline fora uma criança gordinha.

Tá, sem eufemismos: obesa. Enorme.

O distúrbio alimentar da guria fomentou as mais diversas formas de bullying na década de 1990 pelos corredores do finado Colégio Santa Rosa de Lima.

Pobre coitada...

Avanço nos anos para dizer que Aline, hoje com 28 anos, enterrou com alface as assombrações adiposas.

A vida saudável vai bem com a silhueta de quem ostenta 100 mil seguidores no Instagram.

Por mais que Aline não faça parte desta rede social.

Avessa à tecnologia por impaciência mesmo, e não por não saber usar.

E cá estou me alongando de novo...

 

Cada um sustenta seu credo.

Aline, ativista da seita do crossfit, fomenta sua fé à base de batata doce, frango, ovos, aveia, brócolis, banana e exercícios no Crossfit Corcovado, na Bambina.

O corpo natural é o troféu que exibe a si mesma, sem obsessão por likes.

Faz porque gosta, porque se sente bem.

E por isso não se importa em levar suas comidas numa bolsa térmica para cima e para baixo.

 

A moça mora na Eduardo Guinle.

Cruza sete mares e vê o vento completar duas curvas para chegar ao trabalho.

Tem uma clínica oftalmológica em Pedra de Guaratiba.

Aline não tem carro.

A paciência, como disse, ficou presa na placenta de mamãe.

Assim, opta por metrô-trem-ônibus até a labuta.

Dia desses, viu as duas botas de Judas perdidas na esquina do consultório.

 

No início da semana, desceu do ônibus e separava as moedas para a passagem de trem na entrada da estação.

Tropeçou num pedra portuguesa desnivelada na calçada e viu seus trocados todos desaparecerem no infinito do bueiro.

A raiva invadiu-lhe a alma, mas logo deu lugar ao desespero.

Aline não tinha dinheiro para as viagens de volta.

Lá em Deus-me-livre, não tem banco por perto.

Nem 24h.

Apelou.

 

– Moço, eu perdi todo o meu dinheiro! Preciso voltar para casa, não moro aqui! 

– O que houve? – respondeu, calmamente, um agente da Supervia.

– Perdi, moço! Caiu tudo no ralo! Me ajuda, eu preciso ir embora! 

 

O rapaz passou o cartão de gratuidade, e Aline venceu a roleta.

Mas não a fome – que, por sua vez, deu início a uma reação em cadeia extremamente perversa.

A composição chegou à estação, todos embarcaram, mas foram séculos para as portas se fecharem de forma a prosseguir viagem.

Veio a cólera, a impaciência voltou, um instinto explosivo, e a fome gargalhava por causar tudo isso.

Ambulantes vendiam as mais absurdas iguarias.

 

– Olha a ráulis!

– Extensor de carregador de celular é cinco!

– Pele! Olha a pele!

 

Cada vendedor fazia seu anúncio.

O trem, enfim, partiu.

Sentada, Aline abriu sua bolsa térmica e sacou a última vasilha: ovos.

Quatro, apertados num pote demasiado pequeno para tanta proteína, pois vejam: assim que retirou a tampa, a quadrilha voou para fora do recipiente.

Os quatro caíram no chão e, em rolamentos mil, foram dançando por entre pés até sumirem de vista no vagão seguinte.

Atônita, inconformada, faminta e possuída, Aline assistiu à cena.

 

– Puta que pariu!

 

Pensou que tinha ficado na cabeça, mas a senhora ao lado se assustou quando ouviu o grito.

A dieta do dia teria de ser sacrificada. 

O ambulante da empada se aproxima.

Mas Aline não tem dinheiro.

Só tem fome mesmo.

E não come nada até a Central.

Uma vez lá, saca dinheiro e se joga nuns duzentos pastéis com refresco.

Minutos depois, saciada e cheia de farelo no queixo, conforta-se ao pensar que vai descontar o desvio alimentar no treino de crossfit amanhã.

A gente pensa melhor de barriga cheia.

E, assim, ela elucidou um grande mistério na sequência: ráulis é bala Halls.

 

* Marcos Luca Valentim é jornalista, cronista e poeta

 

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