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Questão de ordem!

05.10.2017


 

 

Sempre haverá controvérsias mil quanto às inúmeras ações que envolveram a luta armada no Brasil.

 

A despeito do tom eufemístico do termo – “luta armada” – e à revelia das desavenças internas entre as centenas de organizações, a ditadura esmagou a todas, sem eufemismos. E a história oficial da chamada esquerda brasileira acabou mesmo sendo contada nos porões da tortura.

 

 

Contudo, um dos mais exitosos episódios promovidos pela intelligentsia da guerrilha urbana no Brasil continua sendo o clássico sequestro do embaixador americano Charles Elbrick.

 

No primeiríssimo relato acerca do tema – o romance-depoimento O que é isso, companheiro? –, o jornalista Fernando Gabeira consegue tirar alguma literatura da descrição da cena do famoso sequestro; muito embora não haja até hoje consenso entre as partes envolvidas: quem planejou, quem executou, quem interrogou e quem “justiçaria” o diplomata – caso necessário fosse.

Corria o ano de 1969.

Sabe-se é que, marcando “ponto” ali pelo Largo dos Leões, um dos companheiros viu a luz:

 

“Hoje passei por Botafogo e vi que o carro do embaixador americano cruzava a rua Marques. Pode ser que passe por ali todo dia, pois a casa fica perto.”

 

Sim. O americano Charles Elbrick passava pela rua Marques todos os dias, saindo da São Clemente, sua residência oficial, rumo à embaixada dos EUA, no Centro.

A missão de especular a rotina do embaixador havia sido dada, com antecedência,  à famosa “loira dos assaltos”:

 

“Enquanto Vera examinava a casa do embaixador em Botafogo, buscávamos em Santa Teresa a casa onde ele ficaria, quando sequestrado.”

 

E, avaliadas todas as possibilidades de risco, seria ali, no entorno do Largo dos Leões, que deveria acontecer o bote. É o próprio narrador quem nos instrui:

 

“O lugar adequado para a ação era mesmo a rua Marques –  estreita e tranquila, permitindo que se bloqueasse qualquer carro com uma simples manobra.”

 

Havia doze guerrilheiros envolvidos na cena: ao sentinela da São Clemente com Conde de

Irajá caberia dar o sinal ao avistar o Cadillac de Elbrick; no outro extremo do largo, esquina da rua Marques com a Humaitá, o segundo homem e a “loira” aguardavam dentro de um Fusca; na própria rua Marques, outro Fusca, mais dois companheiros e mais quatro homens a pé, munidos de Inas 9mm e granadas caseiras.

Na Vitório da Costa com Maria Eugênia, uma Kombi estacionada aguardava o desfecho da ação que levaria o embaixador americano Túnel Rebouças adentro, em direção ao cativeiro:

 

 (...) era um túnel grande, que nos permitia sair de Botafogo, onde houve o sequestro, e chegar à casa em apenas quinze minutos, vinte em caso de trânsito difícil. (...) foram formados três grupos. Um interceptaria o carro do embaixador e faria o sequestro. Os dois outros fariam a cobertura na São Clemente e na Voluntários da Pátria.

 

Funcionou. Menos por pavor à guerrilha, mas por temor às possíveis retaliações do poder dos EUA, a ditadura foi célere: no mesmo dia, toda a imprensa oficial noticiava o sequestro – e o resgate.
Em quatro dias, 15 nomes ilustres da esquerda brasileira pisavam em liberdade o solo do exílio.

 

Presos políticos libertados em troca do embaixador Elbrick, entre eles os líderes estudantis José Dirceu, Luís Travassos e Vladimir Palmeiras 

 

 

*Lucio Valentim é professor de Literaturas, doutor em Letras Vernáculas e pesquisador visitante no Programa Avançado de Cultura Contemporânea (PACC) da UFRJ

 

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