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O fim trágico do Dr. Arnaldo Quintella

02.10.2017

No início do século XX, o ginecologista e cirurgião Arnaldo Tertuliano de Oliveira Quintella era um dos maiores médicos do país. Ele morava na antiga rua Dona Polixena, em Botafogo,

 

Aluno brilhante da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, Quintella formou-se em 1902 e fez parte do Movimento Sanitarista – liderado por discípulos de Oswaldo Cruz, como Carlos Chagas, Belisário Pena e Artur Neiva –, que visava a combater as epidemias que dizimavam milhares de brasileiros todos os anos. Aliás, o jovem Dr. Arnaldo Quintella havia sido nomeado inspetor sanitário pelo próprio Oswaldo Cruz.

 

Em 1919, durante a epidemia de gripe espanhola que matou cerca de 15 mil pessoas – mais de 10% da população – na cidade do Rio de Janeiro, Quintella  já era considerado um dos melhores cirurgiões do Rio de Janeiro. Ele abriu mão dos atendimentos em seu consultório particular para dedicar-se, quase que exclusivamente, aos mais necessitados no recém-criado Departamento Nacional de Saúde Pública (DNSP) e no Hospital da Gamboa.

 

Finda a epidemia, o médico retomou as atividades de docente na Academia Nacional de Medicina e o atendimento em seu consultório particular, que conciliava com o trabalho na área pública. A fama de médico dedicado, competente e humano se espalhara, e Quintella era sempre requisitado.

 

Obsessão fatal

 

Foi assim que, em 1921, o médico atendeu a um chamado para a rua Abílio 75, em São Cristóvão, onde viviam o capitão de corveta Dyonisio Martins, sua esposa D. Rachel Cesar Martins e seus filhos Humberto, Haidée, Alda e Heitor. D. Rachel queixava-se de dores, foi medicada, e o Doutor Quintella ainda retornou ao endereço mais duas vezes até fechar o diagnóstico em apendicite. Ele informou que era caso de cirurgia, mas nem a família, nem a doente concordaram com o procedimento. Na quarta crise, no entanto, convenceram-se de que o médico estava com a razão. D. Rachel foi operada, com sucesso, pelo cirurgião, que precisou extrair os ovários e o útero dela.

 

Arnaldo Quintella só voltaria a se encontrar com a paciente no dia 9 de março de 1922. Pouco antes das 18h daquele dia, D. Rachel subiu as escadas do sobrado onde ficava o consultório, na rua da Assembleia 28. Na recepção, ela disse que era uma cliente antiga e só queria dar notícias sobre sua saúde. O médico a recebeu, e, passados alguns minutos, ouviram-se dois disparos. A primeira pessoa a entrar no consultório foi o enfermeiro assistente José Nunes de Oliveira. Ele correu para acudir o Dr. Quintella, que jazia no chão. Em seguida, entrou o paciente Luiz de Castro. Ele tentou desarmar D. Rachel, que, no entanto, teve tempo de disparar um tiro contra a própria cabeça. Quando o socorro chegou, o médico já estava morto, mas D. Rachel, gravemente ferida, ainda vivia. Ela foi operada às pressas e sobreviveu.

 

 

No local do crime, a polícia apreendeu a arma, uma bolsa, um papel com o endereço de Rachel e dois recibos de cartas registradas, uma endereçada ao marido e outra, para D. Haydée Cesar Martins, cunhada. As investigações policiais e o depoimento do marido e de testemunhas levaram à conclusão de que o crime se deu por causa de um transtorno mental evidenciado logo após a cirurgia.

 

Segundo o marido, a esposa lhe teria dito:

 

– O senhor, em parte, é também culpado. Mas, como foi ele quem me operou, eu quero morrer, mas depois de matar o doutor.

 

Dois meses antes, acompanhada do marido e de parentes, D. Rachel fora apresentada ao Dr. Juliano Moreira, no Hospital Nacional de Alienados. Após submetê-la a exames, o médico constatou “desequilíbrio nervoso” e recomendou sua internação em uma casa de saúde o mais depressa possível. A família demorou a decidir e preferiu mantê-la sob vigilância permanente.

 

Bastou, no entanto, um pequeno descuido para que ela fugisse de casa com a roupa do corpo, uma bolsa e algum dinheiro. Obstinada, D. Rachel se hospedou no Hotel Globo, no Centro. Em seguida, comprou um revólver em uma casa de armas da rua do Ourives e se dirigiu ao consultório do médico para consumar o plano.

 

Menos de um mês após o assassinato do Dr. Arnaldo Quintella, D. Rachel morreria em consequência dos danos cerebrais causados pela tentativa de suicídio.

 

Dr. Arnaldo Quintella foi homenageado pela Academia Nacional de Medicina com o título de patrono da cadeira nº 68, da seção de Cirurgia. A rua Dona Polixena, onde ele vivia com a esposa e seis filhos, teve seu nome mudado para Arnaldo Quintella. Perto dali, fica a Policlínica de Botafogo, onde o médico também trabalhou como secretário e chefe de cirurgia.

 

Na tentativa de explicar um crime tão absurdo, jornais da época atribuíam-no à publicidade de crimes cometidos por mulheres – foram quatro em pouco menos de um ano – e seu efeito “nas pessoas de cérebro fraco”. Não pensaram na facilidade com que armas eram vendidas para qualquer um nas diversas lojas espalhadas pela cidade. No Rio de antigamente, na Las Vegas dos dias de hoje, ou em qualquer lugar do mundo, a qualquer tempo, costuma ser esse o real motivo da maioria das tragédias.

 

 * Antonio Augusto Brito é jornalista e adora história do Brasil

 

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