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INGLÊS SOB MEDIDA

AULAS PARTICULARES

O dono do Dona

22.09.2017

 

 

Nestes tempos bicudos em que astros da música pop recebem o Nobel literário e jornalistas obscuros vestem o fardão da Academia Brasileira de Letras, é bom que se diga: nem todos que escrevem podem ser considerados escritores!

 

A literatura, desde Aristóteles, exige regras – e submete-se a estéticas específicas – que conferem ao escrito valor e perenidade literária.

 

 

Em Abusado, o jornalista Caco Barcellos consegue de fato dar tom de romance à reportagem feita com um dos maiores “buchas” do tráfico à época (e digo “bucha” ideologicamente, para não reproduzir o foco da grande mídia, que abona o massacre aos pés-de-chinelo-e-desdentados-perigosos-traficantes-de-favelas, na mesma proporção em que negligencia os verdadeiros “narcos”, que transitam suas drogas livremente em helicópteros suntuosos).

 

Abusado, cujo subtítulo é O dono do morro Dona Marta, traz a história de Marcinho VP, também conhecido como Poeta. A narrativa nos ensina que há também no morro bandido bonitão e letrado, com trânsito entre alguns ilustres do asfalto, e que, por ter gosto refinado –  e armas potentes –, ganhara o coração de rica e culta patricinha:

 

“No apartamento confortável da Gávea, Luana não consegue se concentrar na leitura do romance Aurora, de Fritz Utzeri. Está ansiosa. Espera o telefonema combinado para as nove horas da noite e já passam das dez. Não é a primeira vez que o namorado bandido a deixa esperando (...)

 

Enquanto a namorada espera, o bando de VP, uma vez mais em fuga da polícia, vê a comunidade de Botafogo ser massacrada:

 

“As balas atingem muros e casarões da rua Marechal Esperidião Rosa. Na casa 25, a jovem Ana, de 20 anos, se desespera. Alguns projéteis perfuram a porta e atingem a cama de Ana (...)

 

Este, que é o terceiro romance de Caco Barcellos, tem narrativa consistente e, antes de Tropa de Elite, faz-nos tomar consciência e partido acerca do cotidiano das cadeias e do varejão do tráfico no Rio

 

“(...) levaram Careca preso para a delegacia de Botafogo. Como era reincidente, já tinha sido preso cinco anos antes por receptação de carro. Careca teve que esperar meio ano pelo julgamento na cadeia. (...) mesmo com o morro em guerra, nunca deixou de receber dos amigos pequenas remessas em dinheiro ou maconha. A ajuda serviu para comprar dos carcereiros o direito de tomar uma hora diária de sol, de dobrar o tempo de 15 minutos da visita da família e de poder cobrir com um lençol a grade da cela para ter privacidade quando a mulher Andréia ou a namorada Cristina apareciam.”

 

bem como do lado desumano da morte jovem, estúpida e insana:

 

“(...) não há tempo para refletir sobre as falhas da missão que levaram à morte de Careca. (...) pagou uma propina extra aos policiais para que eles dessem um sumiço nos corpos dos dois mortos do seu bando. Os cadáveres foram levados ensacados morro abaixo e depois deixados dentro do porta-malas de um carro abandonado numa rua de Botafogo.”

 

E – para além da São Clemente, Bambina ou Voluntários –, com o bando em fuga para o topo da favela, nos ambientamos e nos apropriamos da topografia da "periferia" urbana, por quebradas, ruas, becos e vielas:

 

“– Estou chegando ao Cruzeiro, e agora?

– Vai em direção à Mina. Se tiver limpeza, segue para a Pedra. Cuidado com os

cara da P-2.

Ao chegar na Pedra de Xangô, novo contato.

– Sobe mais. Vem pela Jabuti em direção à Cerquinha...”

 

Bem dentro do bairro de Botafogo.

 

 

*Lucio Valentim é professor de Literaturas, doutor em Letras Vernáculas e pesquisador visitante no Programa Avançado de Cultura Contemporânea (PACC) da UFRJ

 

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