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O ex-futuro Barão que vivia em Botafogo

04.09.2017

 

Em fins do século 19, o português João Joaquim de Oliveira, comerciante de madeiras, era um dos grandes donos de terras em Botafogo. Suas propriedades ficavam localizadas nos arredores da rua Real Grandeza, uma das mais antigas e importantes do bairro. Graças a ele, foi feita a ligação entre a parte plana da rua e a parte inclinada, que vai até o Túnel Velho.

 

João Joaquim de Oliveira, além de rico, era extremamente vaidoso. Tanto que se apresentava como comendador. Mas ele não escondia de ninguém que sonhava mesmo era com um título de nobreza, mais precisamente o de barão.

 

Como em geral ocorre nesses casos, aparece sempre algum esperto para tirar proveito da ambição e da vaidade alheias. Em 1884, o comerciante Miguel José de Lima e Silva – parente distante de família de militares de prestígio no Império, como Luís Alves de Lima e Silva, o Duque de Caxias – prometeu ao comendador conseguir-lhe o título de “Barão de Vila Rica” junto ao Ministério do Império por três contos de Réis – uma pequena fortuna, equivalente hoje a cerca de R$ 400 mil. O trato foi feito. Como a outorga do título demorasse, o comendador começou a pressionar Miguel José de Lima e Silva, que finalmente apareceu com documentos... falsos.

 

O comendador que se achava Barão só descobriu que fora vítima de um golpe dias depois, não sem antes se exibir muito pela Corte. E resolveu processar o comerciante por estelionato e falsidade. Miguel José de Lima e Silva foi imediatamente preso, e o processo correu até setembro de 1886, com ampla cobertura dos jornais.

 

Percebendo o grande interesse do público pelo caso, Arthur Azevedo e Moreira Sampaio escreveram O bilontra, um espetáculo de teatro de revista, que fazia uma alegoria do julgamento de Lima e Silva, chamado, na peça, de Faustino pelos autores. Na história, o bilontra – ou pilantra – Faustino é perseguido por credores que querem penhorar seus bens. Surge, então, a oportunidade de ele conseguir dinheiro com a venda de um baronato. Duas personagens alegóricas – o Trabalho e a Ociosidade – discutem seu destino durante toda a peça. Mas a vitória é sempre da Ociosidade, que recebe o auxílio da também alegórica Jogatina, filha do rei do jogo. Na busca incessante por dinheiro para ajudar Faustino, Jogatina e Ociosidade saem pelas ruas do Rio de Janeiro e se deparam com a corrupção da sociedade carioca do século XIX, com jogo correndo solto, fiscais corruptos, demolição de prédios históricos e especulação imobiliária.

 

A revista foi um tremendo sucesso. O povo cantarolava na rua os versos ao ritmo da ária italiana La Donna è Mobile, da ópera Rigoletto.

 

"Barão estou feito

De Vila Rica

Eis a rubrica

Do Imperador!

"Stou" satisfeito

Sou mais um furo

Que aquele obscuro

Comendador.”

 

Envergonhado, o comendador tentou proibir o espetáculo, sem sucesso. O Bilontra ultrapassou a marca de 100 representações e foi responsável pela implantação definitiva do gênero no Brasil.

 

O espetáculo terminava com a absolvição de Faustino, porque o juiz o achava engraçado, e o veredito da revista acabou influenciando o julgamento real, absolvendo também Miguel José de Lima e Silva.

 

O sucesso de O bilontra talvez tenha se dado pelo seu caráter provocador e subversivo. Em um ano de déficit público superior a 18 mil contos de réis, crise na lavoura, propaganda abolicionista, e o Império sem credibilidade, parecia hipocrisia condenar a esperteza de Faustino – ou de Lima e Silva – em meio à corrupção generalizada.

 

Com a humilhação do comendador João Joaquim de Oliveira, o título de Barão de Vila Rica ficou na saudade. Na terra que pertencia ao ex-futuro Barão de Vila Rica, aos pés do Morro da Saudade, resta hoje, por ironia, a pequena rua Vila Rica, em frente ao cemitério, quase na entrada no Túnel Velho.
 

 

 * Antonio Augusto Brito é jornalista e adora história do Brasil

 

 

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