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INGLÊS SOB MEDIDA

AULAS PARTICULARES

Vida de cão

30.08.2017

  

 

 

 

Tim tem medo de avião.

Isso, claro, quando toma seu remédio.

Quando não, é pavor mesmo.

Terror.

E o canadense não esconde isso de ninguém, de modo que, quando chegou ao Rio na semana passada, teve de ser carregado pela esposa para desembarcar da aeronave.

A quantidade cavalar de calmante o derrubou – e ele adorou isso.

Olhos entreabertos e trôpego como um bêbado, Claire teve trabalho para conduzi-lo até a esteira onde se recolhe a bagagem.

Tim só foi começar a acordar no táxi a caminho do hotel.

 

– Eu cheguei a jantar?

– Jantou. Comeu um macarrão que serviram, eu te acordei na hora. Quer dizer, tentei acordar, porque você estava mastigando de olhos fechados – respondeu Claire.

 

O casal de canadenses riu e, minutos depois, fez check-in no Ibis, na Rua Paulino Fernandes.

Pela frente, nove dias na Maravilhosa.

No primeiro, foram à praia, apesar do céu meio cinza.

No segundo, Corcovado e noite na Lapa.

No terceiro, Museu do Amanhã, Uruguaiana e mureta da Urca.

No quarto, praia de novo, Jardim Botânico e tour guiado no Santa Marta.

No quinto...

Bem, no quinto...

A seguir.

 

Tim e Claire tomaram café no hotel, como de costume, e saíram.

Foram à Escadaria Selarón de metrô.

Saltaram errado, na Carioca, mas, quando se está de férias, o tempo perdido consigo não é tempo perdido.

Curtiram a caminhada.

Mais um azo para nova sessão de fotos.

Na obra-prima do excêntrico chileno, poses mil, e novos cliques nos iPhones.

Subiram.

E subiram mais um pouco.

E, em Santa Teresa, se perderam.

A cada nova curva, um ângulo diferente, um feitiço, uma fotografia em movimento, moldurada, maturada para a captura.

A tarde chegou, e comeram pães de queijo no Parque das Ruínas.

A noite avançou, e foram comidos pela incerteza.

O caminho de volta, já não lembravam.

 

– É pra cá?

– Não sei, Claire. Vamos descer que, uma hora, chegamos lá embaixo.

 

A imagem que o Rio faz de si lá fora começou a martelar nas mentes dos gringos.

Eram 20h, e, a cada sujeito que aparecia no caminho, o medo invadia com força.

"Canadenses se perdem em Santa Teresa e são estuprados e mortos por bandidos".

A criatividade de Tim agia em conluio com o horror para fabricar os jornais do amanhã.

Na infinita descida, algo lhes chamou atenção: um cachorro.

De maneira displicente, o animal vinha acompanhando os dois desde o Parque das Ruínas.

À certa altura, Tim estranhou.

 

– Você reparou que esse cão está seguindo a gente há umas duas horas?

– Verdade! Será que é de alguém?

– Isso é ruim, Claire. Cachorro é mau agouro...

– Ai, não começa com suas maluquices, Tim! Cachorro é símbolo de alegria.

– Você tá maluca! Cachorro é má sorte, tanto é que esses bichos veem espíritos!

– Tá bom, Tim. A gente deve estar com algum cheiro que chamou a atenção dele, só isso.

– Isso é um presságio, um mau agouro.

 

Os três continuaram a descida por uma sinuosa e mal iluminada ruela de paralelepípedos.

Claire e Tim começaram a fazer testes.

Paravam abruptamente, e o cão parava também.

Punham-se a correr ladeira abaixo, e o cão acelerava.

 

- Não estou gostando disso, Claire...

- Relaxa, homem! Pelo amor de Deus... Deixa o cão em paz, e vamos sair logo daqui.

 

Quando, enfim, se viram no Catete, já em terra plana, o cão parou junto aos dois, encarou-os por poucos segundos e desapareceu na noite.

Claire entendeu que o animal foi um anjo enviado para mostrar-lhes o caminho de volta.

Tim continuou alimentando suas crenças soturnas.

Pegaram um táxi até Botafogo.

Pararam no Burger King.

Já no Ibis, tomaram banho, transaram e dormiram.

 

Os dias que seguiram foram de igual teor turístico.

Porém, ontem, acordaram às 3h.

O voo para Toronto saía do Galeão às 7h.

Colocaram os últimos pertences na mala, fizeram check-out e foram para a porta do hotel aguardar a chegada do Uber.

Mas, em vez do carro, o cachorro os aguardava.

O cão.

Tim olhou com terror para a figura, estática na esquina da Paulino Fernandes com a Professor Álvaro Rodrigues.

Para acalmar o marido, Claire disse que era outro cachorro.

No fundo, sabia que era o mesmo – e isso a perturbou um pouco também.

O Uber chegou.

Foram até o Galeão sem dizer nada.

No saguão, Tim se prendeu ao fundo dos olhos da amada e segurou-a pelos ombros.

 

– Claire, esse avião vai cair. Vamos trocar o voo.

 

A mulher foi invadida por um misto de terror e certeza instaurados pelo marido e consentiu com a cabeça.

Embarcaram ao meio-dia.

Tim tomou seus remédios às 11h e apagou durante todo o voo.

Sonhou com o cachorro.

O avião caiu.

 

 

 

* Marcos Luca Valentim é jornalista, cronista e poeta

 

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