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INGLÊS SOB MEDIDA

AULAS PARTICULARES

Drummond carioca

17.08.2017

 

 

 

 Muito se tem falado do Drummond poeta, autor dos maiores clássicos da poesia nacional, como o E agora, José e o No meio do caminho, desde os anos de 1930.

Mas pouco se falou da prosa desse poeta – o que é urgente agora – 30 anos após sua morte.

 

As histórias contidas nas crônicas drummondianas passeiam por vários cenários da cidade do Rio de janeiro, lugar do qual o poeta – embora mineiro – conhecia variados caminhos e desvãos.

 

 

Um dos personagens mais efetivos do Drummond cronista, por exemplo – que poderia inclusive ser definido como espécie de alter ego da personalidade lírica do Drummond poeta –, é morador de cobiçada e decadente casa em Botafogo. Em Caminhos de João Brandão, conjunto de crônicas escritas ali por volta de 1967-1968, esse ‘animal incômodo’ que intitula as crônicas vai fazer sua estreia. E, em Fala, amendoeira protagonizará bizarro e kafkiano episódio em que ratos enormes infestam e dominam seu casarão:

 

“João Brandão, morador em Botafogo, não pretendendo incomodar (...) órgão federal, dispôs-se a dar caça direta aos murídeos que lhe infestam o domicílio — uma casa meio antiga, que desperta a gula dos especuladores de imóveis.”

 

É nesse local onde nosso personagem dedicará seu tempo a perseguir e matar ratos:

 

“Os ratos passaram-lhe entre as pernas, e João quase fraturou uma, pois já lhe faltam o viço e maleabilidade da juventude. (...) Escapou de ser ferrado na panturrilha por um ratão mais assustador do que assustado, e a agressão só não se consumou porque agressor e agredido, afinal, fugiram desabaladamente um do outro.”

 

Há uma metáfora extremamente irônica que permeia a ideia dos ratos carcomendo patrimônios. Bem atual, não por acaso, no país das ratazanas:

 

“Falhou também a tentativa original de atrair os bichos para o fogão, ligar o gás e torrá-los. O gás anda fraquíssimo.”

 

E a resignação sobrepõe-se às utópicas e fracassadas tentativas:

 

“João verificou que não há remédio nem jeito contra rato (...) Dentro de cada nação, porém, e no estado atual dos conhecimentos humanos, a eliminação dos ratos é utópica.”

 

A lembrança da morte de Drummond pode não passar de simples efeméride no relicário da memória, porém o que não se pode é lembrar como algo corriqueiro a ideia de roedores que promovem a decadência de um bairro e de um país inteiro.

 

 

Ainda que se tenha de com ratos conviver – e tolerá-los por imposição do momento –, assim como um João Brandão qualquer, a vingança é deixá-los roer na paz, até que roam a si mesmos:

 

“(...) não digo a estimá-los, mas a aceitá-los, o que é quase compreendê-los. (...)São escarninhos e vingativos, mas, deixados em paz, roem em paz.”

 

 

*Lucio Valentim é professor de Literaturas, doutor em Letras Vernáculas e pesquisador visitante no Programa Avançado de Cultura Contemporânea (PACC) da UFRJ

 

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