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Baú de ossos

03.08.2017

 

 

Há escritores que o tempo sufoca.

 

 

Pedro Nava, escritor bissexto, dedicou sua escritura ao gênero memórias. Por esse motivo, é considerado pela crítica o Proust dos trópicos. Suas reminiscências autobiográficas, remontando sempre ao tempo de infância e adolescência, fazem emergir o Rio dos anos 1920, cidade aonde chegaria ainda muito jovem.

 

Em Baú de ossos – um dos títulos que faria parte de sua densa memorialística –, além de milhares de referências a amigos já sumidos dos tempos do secundário, Nava vaga a memória pelos variados e glamourosos bairros do tempo, nos quais passeara sua adolescência:

 

“...vivia nas festinhas familiares de Botafogo, Laranjeiras (...) De festa em festa e de bairro em bairro (...)”

 

Mineiro que era, Nava teve vigência feliz e profícua na Cidade Maravilhosa. Em meio às elites influentes, tanto políticas quanto intelectuais.

 

 

Pairou uma grave interrogação, então, quando naquela noite de 1984, o octogenário Nava foi encontrado com um tiro na testa debaixo de uma árvore, na Glória.

 

De pai médico, o menino Pedro perambularia, por isso, diversas cidades do país e, em suas andanças, sua memória já ia captando a destruição do patrimônio histórico – ainda que vislumbrasse esperanças, à época, no Rio, como no trecho de Galo das trevas:

 

“Pois saibam quantos me lerem que estão sendo criminosamente demolidos os Recifes, Salvadores (...) Ouropretos que ainda existem em trechos da Gávea Botafogo...”

 

Embora as lembranças sejam de saudável vida, e que o bairro de Botafogo sempre tenha destaque na prosa de Pedro, conforme o fragmento de Chão de ferro reforça,

 

“Retomei a falação e pus-me ao par dos progressos de sua gíria (do Rio) durante minha curta ausência. (...) Cada ano diferente. Cada classe, cada profissão, cada clube tem sua língua. Mais. Cada bairro fala a sua. Botafogo, uma; a Tijuca, outra (...)”

 

toda essa memória da infância – emergida na madurez da idade – faz, no fundo, revelar por meio dos títulos obscuros e enigmáticos seu amargor.

 

Anos mais tarde, soube-se que o velho Nava vinha sendo sistematicamente chantageado e ameaçado por jovem gogo boy de Botafogo. Era avô, octogenário, respeitado escritor e homossexual. Suicidara-se.

 

A hipocrisia nossa de cada dia acabava, assim, por discriminar – e banir – uma obra inteira.

 

 

*Lucio Valentim é professor de Literaturas, doutor em Letras Vernáculas e pesquisador visitante no Programa Avançado de Cultura Contemporânea (PACC) da UFRJ

 

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