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AULAS PARTICULARES

Botafogo épico

27.07.2017

Ilustração de A origem do mênstruo, poema erótico de Bernardo Guimarães

 

 

 

Desde Platão, a poesia causa incômodos. Não à toa, na República idealizada pelo mais sábio discípulo de Sócrates, o Poeta não teria voz – nem vez.

 

Soube que um amigo professor poeta fora recentemente expulso de uma escola da elite-zona-sul carioca assim que os pais de seus alunos souberam, via internet, ser o professor poeta autor de lascivos poemas eróticos.

 

Como de sempre ignorante de tudo, a elite desconhece que em todo poeta que se preze – de Gil Vicente a Camões, de Baudelaire a Pessoa, de Drummond a Bukowski – a produção erótica, sem trocadilhos, abunda.

 

O autor do clássico A escrava Isaura, grande romancista que era, superou-se em poemas épicos de cunho mais que eróticos – pornográficos –, cujos títulos, O elixir do pajé e A origem do mênstruo, ambos de 1875, causaram espécie na elite letrada de então.

 

Mas, em contrapartida, toda a luxúria e a sensualidade épico-poéticas de Bernardo Guimarães se estenderiam, também, ao bairro que – a despeito de mineiro – o poeta sempre prezou:

 

Golfo sereno que no teu regaço

A fronte espelhas de escalvados serros,

E soluçando pelas curvas praias

Límpidas ondas preguiçoso estiras;

Vales sombrios de perene esmalte,

Que em caprichosos giros coleando

Vos escondeis nas dobras da montanha

Entre muralhas de empinadas rochas;

Lindas encostas, cômoros viçosos,

Que o rico manto de verdura e flores

Alardeais à luz de um céu formoso;

 

Na epopeia A baía de Botafogo o poeta se espraia em figuras de linguagem e imagens hiperbólicas para exaltar a beleza do lugar:

 

Por sobre vós os séculos passaram,

E um dia o nauta audaz transpondo os mares,

Do inculto Éden veio bater às portas,

E devassar recônditos mistérios

Que em vosso seio os fados ocultavam.

 

Como sabemos – e já alertara Cacaso –, o mar de mineiro é sempre mistério. Por isso, inspiradíssimo, o poeta, após vislumbrar eunucos negros a defender a entrada da enseada que canta,

 

Vede aquele rochedo, que isolado

Com temeroso vulto se levanta

Por sobre as águas; – atalaia eterna,

Que nos céus embebendo a fronte imóvel

Ampara as terras e vigia os mares.

Ei-lo campeia, qual o negro eunuco,

Ali postado, taciturno e quedo,

De harém vedado defendendo a entrada.

 

termina por decantar em versos, sob à luz da baía de Botafogo, sua esperança nessa gente bronzeada e nesse solo tropicais:

 

Deixai, que nestas veigas solitárias

Renasça a tolerância, e que algum dia

Novos costumes, leis, que se harmonizem

Aos ditames da eterna sapiência,

Da liberdade à sombra aqui floresçam...

 

E lá se vão mais de 150 anos.

 

 

*Lucio Valentim é professor de Literaturas, doutor em Letras Vernáculas e pesquisador visitante no Programa Avançado de Cultura Contemporânea (PACC) da UFRJ

 

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