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Leite derramado em Botafogo

06.07.2017

 Foto - Divulgação Companhia das Letras

 

 

Num país continental e multiétnico como o Brasil, as ascendências são inúmeras mas, invariavelmente, remontam às regiões Norte e Nordeste. Isso por um motivo simples: ali se deu a primeira chegada – e a posterior fixação – do patriarca europeu. Sob essa ótica, pode-se afirmar que o Brasil começou na Bahia.

 

Quem um dia não ouvira Chico Buarque rememorar em versos “O meu pai era paulista, meu avô, pernambucano, o meu bisavô, mineiro, meu tataravô, baiano...”, numa ascendência lírico-histórica que, perpassando os ciclos de nossa cultura, remonta à cana-de-açúcar, ao ouro e ao café?

 

Em Leite Derramado, seu quinto romance, o velho Chico revisitaria essas questões da memória de família, colocando no centro da narrativa um moribundo protagonista (ou antes seria um protagonista moribundo?) que, à moda machadiana, jorra no leito de morte passagens desconexas e carcomidas de sua saga familiar – do apogeu à decadência.

 

Lalinho, Lalá, Lilico, como era familiarmente conhecido o centenário narrador, não emerge necessariamente do Norte, mas acumula e representa todas as mais questionáveis tradições de nosso patriarcado.

 

Num fluxo de memória – que tem início com sua primeira cantada no incompleto amor, Matilde –, o velho-narrador nos revela parte de suas origens: 

 

“Vamos nos casar na capela que foi consagrada pelo cardeal arcebispo do Rio de Janeiro em mil oitocentos e lá vai fumaça. E plantaremos árvores, e escreveremos livros, e se Deus quiser ainda criaremos filhos nas terras de meu avô. Mas se você não gostar da raiz da serra por causa das pererecas e dos insetos, ou da lonjura ou de outra coisa, poderíamos morar em Botafogo, no casarão construído por meu pai.”  

 

Sim. Eulálio e seu clã, atores de grande parte da história brasileira – desde a chegada da Corte Portuguesa à República (escravismo e ditaduras, incluídos) –, habitariam ao longo do século inteiro um daqueles casarões de Botafogo.

 

E, ao nos revelar suas origens, concomitantemente, a memória do velho desvela muito do passado e do futuro de uma sociedade desigual,

 

“Ali há quartos enormes, banheiros de mármore com bidés, vários salões com espelhos venezianos, estátuas, pé-direito monumental e telhas de ardósia importadas da França. Há palmeiras, abacateiros e amendoeiras no jardim.”

 

–  e que não se livra de seu trauma étnico-racial:

 

“Minha mãe era de outro século, em certa ocasião chegou a me perguntar se Matilde não tinha cheiro de corpo. Só porque Matilde era de pele quase castanha, era a mais moreninha de sete irmãs.”

 

Além de corruptiva e delinquente, porque, neste instante, no leito de morte, o delírio de Eulálio era uma dia poder reconstruir a antiga imponência do casarão – patrimônio sucateado havia tempos pelos pilantras playboys herdeiros da decadente família –, e que, agora, virara “estacionamento depois que a embaixada da Dinamarca mudou para Brasília.”

 

Em suas memórias quase póstumas, não adiantava mais chorar. Leite derramado.

 

 

*Lucio Valentim é professor de Literaturas, doutor em Letras Vernáculas e pesquisador visitante no Programa Avançado de Cultura Contemporânea (PACC) da UFRJ

 

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