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Bandeira em Botafogo

29.06.2017

 

 

Desde a antiguidade clássica, música e poesia sempre caminharam juntas. Aliás, a poesia, naquele contexto, era feita mesmo para ser cantada e acompanhada pelo instrumento que se tornaria mais tarde, inclusive, seu símbolo: a lira – daí a sinonímia entre o lírico e o poético.

 

A poesia de Manuel Bandeira tem relação profunda com a música. Poeta boêmio da Lapa – embora recifense – e repleto de amigos ilustres, Bandeira viveria situações poético-musicais fantásticas aqui na cidade do Rio de janeiro:

 

"Um dia, em minha casa, na praia de Botafogo, ele pediu para gravar alguns poemas, escolheu alguns numa antologia e tudo foi registrado num gravador de rolo."

 

 

Com essas palavras, o amigo diplomata Lauro Moreira conta como, após certo jantar, o poeta lhe pedira um gravador para, de improviso, gravar alguns dos próprios poemas. Corria o ano de 1967.

 

Bandeira, naquela ocasião na cobertura em Botafogo, contava mais de 80 anos. Depois de três ou quatro copos, o poeta passaria a mão em suas Obras completas, colhidas da estante do embaixador, para recitar, a esmo, textos que ficariam eternizados em sua inflexão poética.

 

O maestro Camargo Guarnieri, que era também amigo de Bandeira e já havia musicado vários poemas do autor de “Pneumotórax”, fizera uma trilha especial para os versos decantados naquela noite. E, de acordo com Lauro Moreira, a música fazia "um diálogo perfeito com os versos”.

 

Embora octogenário e enfraquecido pela tuberculose, Bandeira lera seus versos com irreconhecível vigor e notável clareza, vencendo as buzinas das ruas e o marulho do mar de Botafogo – sons, aliás, poética e estrategicamente registrados pelo embaixador junto à voz do poeta.

 

A tal fita de rolo andaria perdida por quase quatro décadas pelas embaixadas do mundo, nas várias missões de Lauro Moreira – de Barcelona a Buenos Aires, de Washington a Rabat –, para retornar, já migrada do rolo para o CD, sob o título Manuel Bandeira: o Poeta em Botafogo.

 

E nada mais original – e urgente – do que ouvir da boca do próprio poeta os seus “Última Canção do Beco”, “Vou-me Embora pra Pasárgada”, “Noturno da Mosela”, “Neologismo" ou “Rondó do Capitão”, numa sequência mágica de 26 poemas, todos recordados ali, 4 doses acima, décadas depois de terem sido escritos – e ao som de Guarnieri.

 

Bem defronte ao novíssimo aterro e à eterna enseada. 

 

Clarice Lispector (esq.) e Manuel Bandeira (dir.) foram padrinhos do casal Lauro Moreira

 

 

*Lucio Valentim é professor de Literaturas, doutor em Letras Vernáculas e pesquisador visitante no Programa Avançado de Cultura Contemporânea (PACC) da UFRJ

 

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