© 2017 CURTA BOTAFOGO | Direitos reservados | Reprodução autorizada desde que citada a fonte. 

  • Facebook Social Icon

POSTS RECENTES: 

22.10.2019

Please reload

INGLÊS SOB MEDIDA

AULAS PARTICULARES

Não esqueçam Gonzaguinha

16.05.2017

 

 

Eu mesmo já fui vítima do descuido no metrô.

 

Assim que foram inaugurados os vagões das mulheres, não raro eu, embalado pelos fones nos ouvidos e pelo inseparável companheiro Sr. Sono, me punha porta adentro do carro feminino.

 

Às vezes, percebia o engano sozinho; noutras, o segurança educadamente pedia que me retirasse.

 

Certa vez, uma senhora bem atrevida lançou-me impropérios e esteve prestes a levantar um circo, mas esse episódio deixo para outra terça-feira.

 

Hoje é dia de falar da Júlia.

 

Por volta de 8h30, a estação de Botafogo não é das mais cheias - nem das mais vazias.

 

Eu voltava do muay thai e me dirigia a Copacabana, onde faria alguns exames cardíacos, pois, ao contrário do Anselmo, acredito na morte.

 

O inconfundível som, acompanhado pelas primeiras luzes no início do trilho, anuncia a chegada do metrô na plataforma.

 

Bolos humanos se formam nas áreas indicadas para a abertura das portas - o terror dos que vão desembarcar.

 

(Aliás, quando tentam entrar no vagão em que estou antes de permitirem a saída dos que já estão dentro, eu enrijeço meu corpo ao máximo e me sinto uma avalanche, empurrando os carentes de discernimento porta afora. Perdão, mas não é à toa que escrevo uma coluna com este nome).

 

Voltando...

 

Bolos humanos se formam nas áreas indicadas para a abertura das portas – o terror dos que vão desembarcar.

 

Júlia estava com o pai aguardando para entrar no vagão de adesivos rosas, ao lado do meu.

 

Entrei.

 

O metrô demora a sair, e eu, que estou encurralado na porta, vejo dois seguranças passando por mim em direção ao vagão ao lado.

 

Ponho a cara pra fora pra ver o que acontece, porque sou desses.

 

– Senhor, por favor... – pede um dos seguranças.

 

– Eu não vou sair do vagão, já disse! – retruca o homem, revoltado.

 

– Senhor, ainda está no horário das mulheres... Por favor...

 

– Eu estou com a minha filha! Minha filha é mulher, ué!

 

Pelo tom de voz do homem e pela paciência dos seguranças, a previsão era de mais uns 49 minutos até que o imbróglio apresentasse solução.

 

Mas a sabedoria de Júlia resolveu tudo.

 

– Papai, mas eu não sou mulher: sou menina.

 

Os seguranças sorriram e apontaram para Júlia, que beirava os cinco anos de idade.

 

Sem argumentos, o pai veio para o meu vagão, e as portas se fecharam para que o metrô seguisse viagem.

 

Pegou Júlia no colo e deu-lhe um beijo na bochecha, sem nada dizer.

 

Júlia carregava uma revista em quadrinhos da Turma da Mônica numa das mãos.

 

Eu sorri ao notar.

 

E percebi que também fico com a pureza das respostas das crianças.

 

 

* Marcos Luca Valentim é jornalista, cronista e poeta

 

Outros surtos

 

Tolerância zero

Anselmo, o Imortal

Share on Facebook
Share on Twitter
Please reload