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  • Antonio Augusto Brito

Sorriso negro de Botafogo


Ela veio de lá pequenininha.

Veio de Botafogo, mais precisamente da rua Voluntários da Pátria, onde nasceu no dia 13 de abril de 1922 e passou os primeiros anos da infância.

Yvonne da Silva Lara foi fruto de um amor de carnaval. Os pais dela, João da Silva Lara e Emerentina Bento da Silva, conheceram-se num desfile do rancho Ameno Resedá. Ele tocava violão de sete cordas, desfilava pelo Bloco dos Africanos e também se apresentava no Resedá; ela era cantora dos ranchos rivais Resedá e Flor do Abacate.

Ó, padrinho, não se zangue

Que eu nasci no samba

Não posso parar

O casal e a primeira filha viviam em uma casa bem modesta. Como viver da música não era uma possibilidade, Emerentina costurava e lavava roupa para fora, enquanto João era mecânico de bicicletas e fazia outros bicos.

A menina Yvonne passava o dia brincando na rua e cantando cantigas de roda. A Voluntários da Pátria era, então, uma rua tranquila, com 132 casas como a da família Lara, 50 sobrados, 152 prédios de dois andares e apenas 22 edifícios de três pavimentos. O bairro, assim como hoje, era bem arborizado e, mais do que hoje, podiam-se ouvir bem-te-vis, coleiros, periquitos, canários e tiês.

Passarinho estimado

Que me deu inspiração

Dos meus tempos de criança

Guardei na lembrança esta recordação

Todos os dias, quando o sol começava a baixar, Yvonne sentava na soleira da porta para esperar pela chegada do pai. Assim que avistava João – ela o chamava pelo nome –, a menina corria para abraçá-lo. Em casa – não porque alguém a houvesse ensinado –, corria para apanhar os chinelos dele. Por mais que estivesse com fome, ela só jantava quando o pai chegava. E os dois iniciavam animada conversa sobre o que cada um havia feito o dia inteiro.

No dia 30 de setembro de 1924, aconteceu uma tragédia. Em um de seus bicos – de ajudante de motorista de caminhão –, João Lara desceu para colocar calços nas rodas do veículo estacionado em uma ladeira. O caminhão perdeu o freio e o imprensou contra uma parede. Morria João aos 29 anos de idade. Emerentina morreria nove anos mais tarde.

Passaram-se muitos anos até que Yvonne – já consagrada como Dona Ivone Lara, a Grande Dama do Samba – retornasse ao bairro para uma apresentação única no Canecão, no dia 30 de agosto de 2005. Naquela noite, Dona Ivone cantou vários sucessos, ladeada pelas cantoras Alcione, Maria Bethânia e Ana Carolina. O show, beneficente, foi em favor da Casa das Palmeiras, instituição voltada para a reabilitação mental por meio de atividades expressivas, como a pintura e a música. A Casa das Palmeiras fica na rua Sorocaba 800 e foi criada pela Dra. Nise da Silveira, médica revolucionária com quem Dona Ivone Lara trabalhou por vários anos, como enfermeira e assistente social, antes de se aposentar e passar a dedicar sua vida a compor e a interpretar alguns dos mais belos sambas da história.

Saudade amor, que saudade...

A pequena Yvonne

* Antonio Augusto Brito é jornalista e adora história do Brasil

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