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  • Lucio Valentim

Napoleão em Botafogo?


Ilustração de edição do livro Quincas Borba, de Machado de Assis

Houve um tempo em que o Brasil fora francês. E este modismo – que já adornava o neoclássico século XVIII – atingiria o seu ápice no século seguinte, quando a capital da Corte era o Rio de Janeiro. Logo, o robe-de-chambre, a coquete, o pince-nez, o rendez-vous, a mademoiselle e o trottoir entrariam de vez na ordem do dia. E tudo compactuava com o gosto da periférica – e falsamente ilustrada – aristocracia local.

Não falar a língua de Voltaire, portanto, era quase sacrilégio na capital da Corte tropical.

É sob esta ótica que, em O Napoleão de Botafogo, Gilberto Pinheiro Passos avalia o personagem Rubião – um dos mais emblemáticos da prosa de Machado de Assis – à luz de sua napoleônica aventura.

Vindo candango de Barbacena, Rubião tem na Corte seu ideal de cultura, encanto, sensualidade e rutilância. Assim que, de golpe em golpe, de batalha em batalha, nosso Napoleão galga postos, rumo aos seus ideais de conquistas. A primeira batalha foi herdar – e aqui não cabe como – suntuoso casarão no Rio de janeiro:

Seguiu-se a mudança para a casa de Botafogo, uma das herdadas; (...) o amigo Palha prestou grandes serviços ao Rubião, Guiando-o com o gosto, com a notícia, acompanhando o às lojas e leilões. Às vezes, como já sabemos, iam os três; porque há coisas, dizia graciosamente Sofia, que só uma senhora escolhe bem. (...)

Em meteórica ascensão social, o Napoleão de Botafogo vivia ao gosto cortês: a joias, jantares, negócios, negociatas, metido em megalômanos pensamentos – mas ainda longe de sua Waterloo:

Rubião fitava a enseada - eram oito horas da manhã. Quem o visse, com os polegares metidos no cordão do chambre, à janela de uma grande casa de Botafogo, cuidaria que ele admirava aquele pedaço de água quieta; mas, em verdade, vos digo que pensava em outra coisa. Cotejava o passado com o presente. Que era, há um ano? Professor. Que é agora? Capitalista. Olha para si para as chinelas (umas chinelas de Túnis), para a casa, para o jardim, para a enseada, para os morros e para o céu; e tudo, desde às chinelas até o céu, tudo entra na mesma sensação de propriedade.

Rubião-Napoleão – até então – sentia-se imperador dos próprios sonhos. Um predestinado:

Em marcha para a lua, não via cá embaixo mais que as felicidades perenes, chovidas sobre ele, desde o berço, onde o embalaram fadas, até à Praia de Botafogo, aonde elas o trouxeram, por um chão de rosas e bogaris. Nenhum revés, nenhum malogro, nenhuma pobreza; - vida plácida, cosida de gozo, com rendas (...)

Não percebia que o ovo da serpente era chocado e se engendrava ali, na figura onipresente do casal de golpistas “amigos do peito”, a Sofia e o Palha. Agora sócios:

Rubião é sócio do marido de Sofia, em uma casa de importação, à Rua da Alfândega, sob a firma Palha 81 Cia. Era o negócio que este ia propor-lhe, naquela noite, (...) na casa de Botafogo.

Dessa forma, numa sucessão de eventos em espiral, o casal consegue engabelar o “imperador”: Sofia mostra-lhe as coxas, enquanto Palha raspa-lhe os caixas. E ademais, além de sócio, Palha torna-se também conselheiro e fiel depositário dos títulos do nosso manipulável imperador:

Lembra-se das ações daquela Companhia União dos Capitais Honestos? (...) Pois venda justamente essas ações; contento-me com o sólido. Ou então dê-me da caixa da nossa casa... Passo logo por aqui, se você quiser, ou mande-me lá a Botafogo. Caucione umas apólices (...)

Concomitantemente às batalhas financeiras, o nosso Napoleão também vai perdendo as faculdades mentais. Logo, enlouquece e, já louco, é imediatamente afastado da mansão de Botafogo e confinado pelos golpistas. Que assim anunciam aos demais:

O nosso amigo precisa de repouso por algum tempo, disse-lhes o Palha, em Botafogo, na véspera da mudança. Hão de ter reparado que não anda bom; tem suas horas de esquecimento, de transtorno, de confusão; vai tratar-se, por enquanto é preciso que descanse. Arranjei-lhe uma casa pequena, mas pode ser que, ainda assim, passe para um estabelecimento de saúde. Ouviram atônitos.

O casal, cínico, ainda faz uma última visita ao Rubião, louco e limitado a infame quarto – tão fétido quanto obscuro.

Os vigaristas – vencida a guerra do alpinismo social – naquele momento pensavam era na fortuna das apólices e no palacete que surrupiaram:

Sofia, antes de pôr o pé na rua, olhou para um e outro lado, espreitando se vinha alguém; felizmente, a rua estava deserta. Ao ver-se livre da pocilga, Sofia readquiriu o uso das boas palavras, (...)Falou-lhe de Rubião e da grande desgraça da loucura; assim também do palacete de Botafogo. Em outubro, (...) inaugurou os seus salões de Botafogo, com um baile, que foi o mais célebre do tempo.

E foi assim que (nosso) Napoleão perdeu a guerra.

*Lucio Valentim é professor de Literaturas, doutor em Letras Vernáculas e pesquisador visitante no Programa Avançado de Cultura Contemporânea (PACC) da UFRJ

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