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  • Antonio Augusto Brito

Da tragédia à solidariedade


Reportagem de 28 de dezembro de 1946 publicada na Revista da Semana.

Uma tragédia – a morte de suas três filhas entre os anos 1920 e 1930, tendo como causa uma mesma doença cardíaca – levou d. Clotilde Guimarães, dama da alta sociedade carioca, a dedicar a vida à assistência social. Inicialmente, ela recebia filhos de famílias carentes em sua casa, no bairro de Copacabana. Mas a demanda era tanta, que Clotilde alugou uma casa em Botafogo, onde inaugurou, em 1934, o orfanato que batizou de União das Operárias de Jesus.

Lá, ela procurava oferecer o que havia de melhor em termos de formação. Além da alfabetização e do curso primário, as crianças tinham oficinas de marcenaria, bordado e culinária, em que aprendiam a criar móveis com entalhes artísticos, bordados finos usados em casamentos da alta sociedade carioca e massas caseiras. Mais tarde, foi criada também a oficina de sapataria, que ensinava o processo de fabricação artesanal de sapatos ortopédicos e sapatilhas de balé. Naquela época, só havia fábricas de sapatilhas na cidade de São Paulo.

Toda a estrutura da União das Operárias de Jesus era fruto de doações de empresas e de particulares. Clotilde cuidava da administração; Maria Teresa, de tradicional família paulista, era responsável pela arrecadação de fundos para o orfanato; e Antonieta Martins, pianista premiada, acompanhava a educação das crianças. A União conseguiu bolsas de estudos para seus alunos no Colégio Pedro II, no Instituto Franco-Brasileiro e nos colégios Andrews e Mallet Soares, até que, anos mais tarde, inaugurou uma escola na própria sede da instituição, na Praia de Botafogo 524.

Assis Chateubriand, dono do império de notícias Diários Associados, era um dos grandes protetores da instituição, assim como o poeta, diplomata e vereador Paschoal Carlos Magno. Por meio dos dois, as crianças puderam conhecer os escritores Monteiro Lobato e Menotti del Picchia, além de atores como Sérgio Cardoso, Inez de Castro e Sérgio Brito.

Conjunto Coreográfico Brasileiro


Na década de 1940, o balé clássico ainda se desenvolvia na cidade do Rio de Janeiro. O objetivo daqueles que se interessavam pela arte era entrar para a Escola Municipal de Bailados, ligada ao Theatro Municipal do Rio de Janeiro. Algumas meninas da União das Operárias de Jesus prestaram exame e foram admitidas na escola, tendo a oportunidade de conhecer e estudar com o bailarino e coreógrafo tcheco Vaslav Veltchek (foto). O artista foi dar aulas na sede da União das Operárias de Jesus a convite de d. Clotilde. Assim nasceu, em 1943, a Academia Brasileira de Dança, que também aceitava alunos pagantes de fora do orfanato, o que ajudava nas despesas da instituição. No acordo feito entre d. Clotilde e Veltchek, todas as crianças podiam experimentar as aulas, porém apenas aquelas selecionadas pelo coreógrafo fariam parte do corpo de balé do orfanato – o Conjunto Coreográfico Brasileiro.

Formado por 14 jovens bailarinos, o Conjunto Coreográfico Brasileiro cumpria uma rotina exigente. Pela manhã havia aulas teóricas; a tarde era dedicada ao desenvolvimento da técnica e dos ensaios, que, muitas vezes, terminavam à noite. Veltchek era responsável por tudo o que dizia respeito ao conjunto: lecionava, escolhia os papéis de cada aluno e criava as coreografias. Apresentando-se inicialmente para apoiadores e seus convidados, o Conjunto Coregráfico Brasileiro ganhou prestígio e passou a exibir-se em outras cidades e no exterior.

Quando o projeto do Conjunto Coreográfico Brasileiro foi encerrado, boa parte dos bailarinos seguiu na carreira. Depois de servirem ao Exército, os dois únicos rapazes, Nilton Vasconcelos e Yellê Bittencourt, seguiram para o Uruguai a convite do mestre Veltchek. Nilton fez carreira lá mesmo. Yellê partiu para uma carreira internacional, viajando pela Europa e pelos Estados Unidos, sempre dançando ou ensinando, e convivendo com os maiores nomes da dança internacional. Fez parte da Ópera de Bordeaux, do Grand Ballet du Marquis de Cuevas e do Ballet Theater of Harlem. Depois de encerrar a carreira como bailarino, lecionou em companhias de Maurice Béjart e da Ópera de Berlim.

Entre as 12 meninas, muitas continuaram, de alguma forma, ligadas ao balé. Amélia Moreira dançou na Fundação Brasileira de Ballet, deu aulas no Colégio Nossa Senhora da Imaculada Conceição e na Escola de Danças Clássicas do Theatro Municipal do Rio de Janeiro até se aposentar. Miriam Guimarães dançou na Associação de Ballet do Rio de Janeiro, no Ballet Brasileiro da Bahia, em Salvador, e lecionou na Ebateca (Escola de Ballet do Teatro Castro Alves). Maria do Carmo foi convidada para trabalhar em Juiz de Fora, onde abriu uma escola de dança. Olga Baptista fez carreira em teatro de revista e trabalhou em cinema. Por fim, Beatriz Costa foi para os Estados Unidos fazer parte do New York City Ballet.

Clotilde Guimarães morreu em 1965, mas sua obra social permanece na essência, que é cuidar de crianças. A instituição deixou de ser orfanato. Todas as 70 crianças que frequentam a União têm família, mas vivem em situação de risco social. Há uma lista de espera permanente de cerca de 180 crianças, mas a preferência é daquelas que morem em comunidades carentes próximas, como Tabajaras, Santa Marta e Babilônia.

As crianças são atendidas gratuitamente por uma equipe que inclui professoras, psicopedagoga, nutricionista, psicólogo, fonoaudióloga, assistente social e dentista. A casa continua sobrevivendo de doações e da renda do aluguel do Colégio Imperial, pertencente à instituição.

D. Clotilde Guimarães virou nome de rua, bem ao lado da instituição que criou. Uma justa homenagem a quem transformou sua tragédia pessoal em esperança e futuro para centenas de crianças.

Sede da instituição, na Praia de Botafogo. Atrás, a rua Clotilde Guimarães.

* Antonio Augusto Brito é jornalista e adora história do Brasil

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