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Nada é para sempre


Ao passar pela fachada do número 284 da rua São Clemente, onde se lê “Forever Living”, você poderia se perguntar: que mistérios guardam aqueles muros? Será que no interior daquela mansão imponente está escondido o segredo da vida eterna?

Quer dizer, você poderia se perguntar se não houvesse o Google. Em uma rápida pesquisa, descobrimos que Forever Living é uma empresa norte-americana de produtos de cosmética, nutrição e cuidados pessoais, e a mansão de Botafogo é sede da empresa no Brasil desde 1996. Seus produtos têm como base um gel natural extraído da aloe vera, planta de regiões desérticas também conhecida como babosa (mas, convenhamos, “babosa” nunca soou bem em comerciais). Suas propriedades medicinais já eram conhecidas pelos egípcios por volta de 3.500 AC. Ela também foi utilizada pelos médicos das tropas de Alexandre, o Grande para curar feridos nas batalhas. A planta, no entanto, de nada serviu para o próprio Alexandre, que morreu aos 33 anos. Nada de “forever living” para Alexandre Magno, a não ser nos livros de história.

Mas a velha mansão da São Clemente tem história mais recente. Ela foi construída na década de 1910 e pertenceu originalmente a Miguel Calmon Du Pin e Almeida, que muitos podem confundir com o Marquês de Abrantes, mas, na verdade, trata-se de seu sobrinho homônimo.

Engenheiro, político e representante da oligarquia cacaueira baiana, Miguel Calmon era correligionário e vizinho do conterrâneo Rui Barbosa, que morava no número 134, da rua São Clemente. Foi figura proeminente nas primeiras décadas da República. Entre os anos 1906 e 1909, foi ministro da Viação e Obras Públicas dos governos de Afonso Pena e Nilo Peçanha. Anos mais tarde, retornou ao governo como ministro da Agricultura, Indústria e Comércio de Artur Bernardes de 1922 a 1926.

Nessa função, Miguel Calmon denunciou os crimes do governo Floriano Peixoto, que, em 1892, durante protestos contra seu governo, mandou prender manifestantes e deportou centenas de pessoas, sem qualquer processo legal, para o Acre. Floriano Peixoto era o tipo de político que faria sucesso hoje entre certos grupos. Quando Rui Barbosa ingressou com habeas corpus no Supremo Tribunal Federal em favor dos detidos, Floriano Peixoto ameaçou os ministros da Suprema Corte: "Se os juízes concederem habeas corpus, eu não sei quem amanhã lhes dará o habeas corpus de que, por sua vez, necessitarão". O STF negou o habeas corpus por dez votos a um. A Egrégia Corte sempre teve instinto de sobrevivência.

Miguel Calmon morreu em 1935, aos 56 anos, sem deixar descendentes. Sua viúva doou para o Museu Histórico Nacional obras de arte, móveis, tapetes, documentos, fotografias e uma vasta biblioteca. O conjunto forma a “Coleção Miguel Calmon”, que retrata o estilo de vida dos poderosos da Primeira República.

Nada é para sempre. Nem Alexandre, o Grande; nem Floriano Peixoto, o Marechal de Ferro; nem Rui Barbosa, o Águia de Haia; nem Miguel Calmon. Já a mansão Forever Living, tombada pelo patrimônio histórico, por ora está protegida.

Divulgação

* Antonio Augusto Brito é jornalista e adora história do Brasil

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