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Mimimi


Ao longo dos anos, frequentar o Creb tornou-se habitual.

Futebol, basquete, muay thai...

Dessa vez, foi o futebol americano o responsável por me reconduzir àquele lugar.

Ali, me curei de algumas lesões, mas agravaram-se outras - psicológicas.

A paciência, por exemplo, é exigida em nível extremo.

E tá aí uma qualidade que deixei na placenta da mamãe.

Fui ao Creb ontem à noite, depois do trabalho.

Epicondilite lateral (pode ir no Google, não é vergonha nenhuma).

Cheguei lá por volta das 21h.

Mais precisamente, tive minha ficha de fisioterapia carimbada às 21h04.

No vasto salão, o vazio me indicava que, em no máximo 20 minutos, eu estaria fora dali.

Duas mulheres atendiam dois pacientes, e outros dois aguardavam junto a mim.

A fila andou, e, logo chegaram mais dois casais, que se hospedaram a algumas cadeiras de distância.

Já estávamos para lá de 21h30.

Uma fisioterapeuta, que parecia ser a responsável pelo atendimento, passou por mim e foi até um dos casais.

Parênteses: não teria necessidade de dizer, mas, enfim: são brancos.

– Está tudo bem com vocês? Já foram atendidos?

Simpática e prestativa, pensei.

Dirigiu-se ao segundo casal e refez as perguntas.

Eu aguardei minha vez de respondê-las.

Afinal, na teoria, eu seria o próximo a ser atendido.

Mas, na prática, eu sou negro.

A moça passou direto, sem sequer olhar na minha cara.

Tudo bem, ela pode não ter visto o meu rosto, mas impossível não ter notado meu cabelo.

Ficou parada a metros de mim, olhando para uma prancheta, enquanto eu mirava bem no meio da fuça dela, ainda não acreditando naquilo.

Li o nome bordado no bolso do jaleco.

Fátima.

Minutos depois, virou-se de costas e sumiu.

A ira foi me consumindo. Eu sou vulnerável.

Fiquei de pé.

Mas, no momento em que me levantei, veio uma outra mulher, igualmente trajada de jaleco branco.

Acho que foi a única que percebeu que já havia meia hora que eu estava ali, parado, como um totem enfurecido.

– O senhor já foi atendido? Falta alguma coisa?

– Falta tudo! Falta aquilo ali, ali e ali! – respondi, apontando para os aparelhos.

– Ué... Qual o nome do senhor?

– Marcos Luca Paes Leme Valentim.

– Convênio?

– Bradesco.

– Hum... Mônica, tem algum Marcos Luca aí contigo? É Bradesco.

– Não, já botei a ficha dele aí para ser chamado.

– Ué...

– Ih! Ficou aqui, esqueci! Toma! – apressou-se Mônica.

A moça que reparou minha presença ali pegou o papel, me pediu desculpas e indicou uma cadeira para que eu fosse atendido de imediato.

A partir dali, levei 20 minutos para os três procedimentos.

Rapidinho.

Ah, se a Fátima tivesse tido o mesmo cuidado comigo que teve com os casais que chegaram depois de mim...

Depois de mim, que fique claro.

Depois de mim.

Ai, ai...

Cegueira seletiva?

Racis...

Opa! Palavra proibida, neguinho.

O certo é "mimimi".

* Marcos Luca Valentim é jornalista, cronista e poeta

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#surta #botafogo

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