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Vinicius: primeiro amor em Botafogo


Vinicius morou em Botafogo. Quando criança, o poetinha viveu ali, perambulando pelas ruas do bairro, em casas dos avós paternos, e, muito precoce – tanto na poesia quanto no amor –, já buscava entender poética e biblicamente certas coisas do coração: “Eu conheci Branca no colégio público, tinha por aí meus sete anos. Era a Escola Afrânio Peixoto e ficava a meio caminho da rua da Matriz...”

O poeta habitou vários endereços no bairro, numa época em que a infância era mágica e Botafogo era único. Nasceu no Jardim Botânico, mas logo aos três anos trouxe sua poesia: a Voluntários, a rua da Passagem, a 19 de Fevereiro, a Real Grandeza e a Voluntários novamente abrigariam desde menino a grandeza do poeta.

Imagine-se o Vinicius aos sete anos – e já poeta! –, quanta coisa naquela cabecinha não passava? Quanta ilusão de menino povoava aquele que um dia seria o autor de uma ‘Tarde em Itapuã’ e do poema da ‘Mulher que passa’?

Na sequência do relato desse seu primeiríssimo amor em Botafogo, o poeta nos situa no tempo-espaço de sua pioneira emoção: “Branca foi a minha primeira namorada. Morava na casa contígua à minha, na rua Voluntários da Pátria...”

Em pleno 1920, pouco antes de cumprir o secundário no tradicional Colégio Santo Inácio (como muitos garotos de seu tempo), o diplomata, o boêmio, o poliglota, o clássico sonetista, o compositor popular, o nove vezes marido nos revela a cena mais antiga da erupção de sua fértil e duradoura libido: “A menina usava o vestido bem acima dos joelhos e tinha sempre um laço de cor no chinó...”

Vinicius em peça de teatro no Colégio Santo inácio

O poeta que amou demais – aquele a quem Manuel Bandeira confessara invejar, por ser o único de sua geração a de fato 'viver poesia' – desnuda o início de sua vocação lírico-amorosa, no auge dos sete anos de idade, repleto da peculiar sensualidade que acompanharia toda a sua obra poética: “Comecei a amá-la porque um dia, no portão de sua casa, minha mão encostou de leve em sua perna. Nunca mais esqueci essa sensação. Foi a coisa mais fresca, dúctil, lisa, benfazeja que jamais toquei em minha vida...”

Nesse relato, enfim, ficam historicamente expostos o rosto e a origem desse primeiro amor do autor de ‘Garota de Ipanema’, mas também algo das vicissitudes de nossa sociedade fragmentada em classes – e cores:

“E namorei-a apesar do seu sobrenome, que me envergonhava um pouco, e de sua cor, pois Branca era quase pretinha.”

E era de Botafogo.

*Lucio Valentim é professor de Literaturas, doutor em Letras Vernáculas e pesquisador visitante no Programa Avançado de Cultura Contemporânea (PACC) da UFRJ

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