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Não esqueçam Gonzaguinha


Eu mesmo já fui vítima do descuido no metrô.

Assim que foram inaugurados os vagões das mulheres, não raro eu, embalado pelos fones nos ouvidos e pelo inseparável companheiro Sr. Sono, me punha porta adentro do carro feminino.

Às vezes, percebia o engano sozinho; noutras, o segurança educadamente pedia que me retirasse.

Certa vez, uma senhora bem atrevida lançou-me impropérios e esteve prestes a levantar um circo, mas esse episódio deixo para outra terça-feira.

Hoje é dia de falar da Júlia.

Por volta de 8h30, a estação de Botafogo não é das mais cheias - nem das mais vazias.

Eu voltava do muay thai e me dirigia a Copacabana, onde faria alguns exames cardíacos, pois, ao contrário do Anselmo, acredito na morte.

O inconfundível som, acompanhado pelas primeiras luzes no início do trilho, anuncia a chegada do metrô na plataforma.

Bolos humanos se formam nas áreas indicadas para a abertura das portas - o terror dos que vão desembarcar.

(Aliás, quando tentam entrar no vagão em que estou antes de permitirem a saída dos que já estão dentro, eu enrijeço meu corpo ao máximo e me sinto uma avalanche, empurrando os carentes de discernimento porta afora. Perdão, mas não é à toa que escrevo uma coluna com este nome).

Voltando...

Bolos humanos se formam nas áreas indicadas para a abertura das portas – o terror dos que vão desembarcar.

Júlia estava com o pai aguardando para entrar no vagão de adesivos rosas, ao lado do meu.

Entrei.

O metrô demora a sair, e eu, que estou encurralado na porta, vejo dois seguranças passando por mim em direção ao vagão ao lado.

Ponho a cara pra fora pra ver o que acontece, porque sou desses.

– Senhor, por favor... – pede um dos seguranças.

– Eu não vou sair do vagão, já disse! – retruca o homem, revoltado.

– Senhor, ainda está no horário das mulheres... Por favor...

– Eu estou com a minha filha! Minha filha é mulher, ué!

Pelo tom de voz do homem e pela paciência dos seguranças, a previsão era de mais uns 49 minutos até que o imbróglio apresentasse solução.

Mas a sabedoria de Júlia resolveu tudo.

– Papai, mas eu não sou mulher: sou menina.

Os seguranças sorriram e apontaram para Júlia, que beirava os cinco anos de idade.

Sem argumentos, o pai veio para o meu vagão, e as portas se fecharam para que o metrô seguisse viagem.

Pegou Júlia no colo e deu-lhe um beijo na bochecha, sem nada dizer.

Júlia carregava uma revista em quadrinhos da Turma da Mônica numa das mãos.

Eu sorri ao notar.

E percebi que também fico com a pureza das respostas das crianças.

* Marcos Luca Valentim é jornalista, cronista e poeta

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